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A crónica das "pilinhas" e dos "pipis"


Quando eu era pequena, as meninas tinham pipis, e os meninos tinham pilinhas. Agora que já sou crescida, os meninos têm um pénis e testículos, e as meninas vulva e vagina. Este é, sem dúvida, um exemplo da mudança dos tempos. Pode parecer algo insignificante para uns, e alguns mais chocados dirão até “que nomes tão feios”, ou “tão pesado para crianças pequenas”, mas na realidade chamar as coisas pelos nomes certos é cada vez mais a melhor opção. Ao longo das próximas linhas, vou tentar que isto faça sentido para vós, e que percebam até que ponto isto pode ser importante para os vossos filhos.


Nascemos seres sexuados. Crescemos, vivemos, e morremos seres sexuados também. As crianças são naturalmente curiosas em relação aos seus corpos, e o adulto responde normalmente a essa curiosidade, não é? É muito habitual ensinarmos às crianças onde estão os olhos, o cabelo o nariz… aliás, identificar partes do corpo até é um parâmetro a avaliar no próprio desenvolvimento infantil. E então o que acontece com os genitais? A verdade é que, até por volta dos 2-3 anos, em que a criança irá deixar as fraldas, os genitais estão quase sempre fora do seu alcance, fora do que é possível na exploração habitual. E por isso mesmo, nos períodos em que o bebé e a criança pequena vai trocar a fralda, é muito comum que os meninos puxem e repuxem o seu pénis, e que as meninas alcancem a sua vulva. É a única altura em que o podem fazer. Mais tarde então, quando a criança larga a fralda, passa a ser um “território” desconhecido que estes pequenos exploradores têm de conhecer.


E logo surgem, para alguns pais, algumas questões relacionadas com este “reconhecimento do território”. Porque as crianças, ao tocar nos seus genitais, sentem também prazer, mas não na dimensão sexual que o adulto atribui a estes gestos. E podem masturbar-se (não preciso de soletrar isto, pois não? Chama-se mesmo assim, com todas as letras), sentindo o mesmo prazer que por exemplo alguns bebés sentem ao tocar nos lóbulos das orelhas, ou ao enrolar o cabelo nos dedos. E ninguém vê mal nenhum nestes últimos comportamentos, pois não?

Algo que pode causar alguma confusão à criança neste momento, é que de repente passamos de um ponto na vida em que toda a gente lhe troca a fralda e é “permitido” que olhe e mexa nos seus genitais (com toalhetes, compressas, o que for), e de repente essa zona que agora lhe é acessível ao toque passa a ser “proibida”. E é nesta altura de exploração que devemos aproveitar para falar com a criança, com a naturalidade de tantas outras coisas, e explicar-lhe sem fazer uma grande complicação da situação, ou até dizer mais do que a criança precisa de ouvir. Explicar-lhe que tem um pénis e testículos, ou uma vulva (que são os elementos externos da genitália masculina e feminina, respetivamente), e que não há nada errado em tocar neles, e que é normal que possa gostar de o fazer. E aproveitar esse momento para explicar que há situações em que é permitido fazer isso (e aqui é uma oportunidade de falar dos conceitos de público e privado), e que apenas ele próprio pode tocar nos seus genitais, sendo que os outros cuidadores apenas o podem fazer na altura da higiene. Satisfeita a curiosidade da criança, o mais provável é que nem pense muito mais nisso e logo se entretenha com outra coisa.


E perguntam vocês, mas será isto assim tão importante, chamar os nomes certos aos genitais, explicar quem pode tocar…? É muito importante, é uma das formas com que melhor conseguimos prevenir o abuso sexual infantil. Se falar de genitais vos perturba, certamente o abuso sexual vos perturbará mais. Mas existe, como existe tanto mal aí fora. Eu já o vi, em crianças e adolescentes sentados na cadeira da consulta onde se sentam tantos outros que felizmente nunca passaram pelo mesmo. Uma criança a quem foi transmitido que é “feio falar sobre essas partes” muito mais dificilmente relatará que alguém lhe tocou. Uma criança que sabe e reconhece as partes do corpo, e expressa-se bem, mais dificilmente atrairá predadores. E lembrem-se, é no seio da família, e dos conviventes mais próximos, que se verificam o maior número de abusos sexuais. Portanto, tocar nos genitais das crianças, apenas no que são cuidados de higiene. Seja quem for.

Termino com ainda mais uma questão com que os pais frequentemente se debatem. “Se eu falar dos genitais ao meu filho, ou à minha filha, não o estarei a sexualizar numa idade precoce?”. Não. A atribuição de uma conotação sexual está na mão dos adultos, e não da criança. Vamos distinguir, no fundo, o que é a sexualidade (que nasce com o ser humano, como já disse), da sexualização – uma ação que ocorre de fora para dentro, ou seja, que é externa à criança e não adequada ao seu desenvolvimento natural. É a “adultização” infantil, muitas vezes utilizada na publicidade infantil, o dar a crianças características típicas de corpos mais velhos – maquilhagem, soutien, saltos altos… e é transmitir à criança que a aparência física é o mais importante na identidade pessoal, e com isto arriscar que a auto-estima se baseie numa dimensão única – o corpo. Com todos os problemas que isso acarreta, e que não são poucos.

Portanto, falar sobre sexualidade não significa sexualizar a criança, mas sim refletir sobre algo que é natural, respeitando o desenvolvimento da mesma e os limites do que é adequado discutir em cada faixa etária. Notem bem que as crianças geralmente perguntam o que querem saber. E os adultos, geralmente, é que complicam.


Espero que esta reflexão vos faça pensar um pouco. E, acima de tudo, vos relembre que independentemente de posições sociais, religiosas, políticas ou económicas, todos devemos ter como objetivo comum proteger as nossas crianças, e assegurar que estejam seguras em todas as etapas do seu desenvolvimento.

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