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A culpa das mães de segunda viagem


Este domingo, pinto-vos um retrato. Um retrato onde é pincelada, como fundo, uma família. Do desejo e vontade, concebe-se e acrescenta-se o primeiro bebé. Cresce forte, sadio, cada vez mais afirmando a sua presença e direito a ser na barriga da sua mãe. Na azáfama do dia a dia, ainda assim encontra-se o tempo, são feitos projetos, a alegria de preparar as pequenas roupas nas quais podemos afundar a cara de tão macias e cheirosas que são, o compromisso de querer o melhor com que nos leva a comparar inúmeras cadeiras automóvel, berços, ninhos, e tantas coisas mais. Cruzamos a livraria, afagando a nossa barriga, e já debaixo do braço levamos com esperança um, dois, três livros que nos explicam esse ser que é o bebé, como dorme, como come, como comunica... apaziguamos assim talvez o medo de não sermos perfeitas, de não estarmos à altura de um dos mais belos projetos da vida. Inscrevemo-nos em cursos de preparação para o parto, preparação para o nascimento, cada uma de nós idealiza na sua mente o parto e o nascimento perfeitos, e compromete-se perante si, e perante esse pequeno ser, a dar o melhor possível para que tal aconteça. Um primeiro bebé, ansiado e esperado por nove longos (e curtos, ao mesmo tempo!) meses, traz habitualmente consigo a esperança e o amor, mas também o medo e a insegurança.

Nasce, enfim, e “rouba” a cada sorriso, a cada olhar, e completamente sem esforço, todo o tempo e dedicação da sua mãe. Uma cisão brusca e inesperada entre mãe e mulher (e quiçá demais papéis, esposa, companheira, profissional), em que a mãe emerge e silencia as demais. A mãe sente-se a caminhar como uma trapezista numa linha suspensa, braços estendidos na lateral do corpo para se equilibrar, andando quase sem rede, teme colocar o pé em falso e resvalar, mas mais do que cair sozinha, que o bebé caia consigo. Empurra para o fundo de si as suas necessidades mais básicas, o comer, o tomar banho, lavar o cabelo... fazer chichi à distância de um choro parece uma tarefa hercúlea. Ouvir música, dar um passeio no parque, telefonar a uma amiga... parecem fragmentos de uma vida anterior, vivida há séculos, por uma pessoa diferente.

Lentamente, e preferencialmente com a ajuda da família que amamos, começamos a respirar de alívio, à medida que as primeiras semanas e meses passam. Não correu assim tão mal, pois não? Aquele bebé, o nosso bebé, não nos deixa dormir nada de jeito mas brinda-nos todas as manhãs com o seu mais bonito sorriso, ouro fluido que nos aquece o coração e faz pensar, repetidamente, tudo vale a pena. Cai-nos o cabelo, temos lapsos de memória, não nos lembramos das palavras que anteriormente fluíam com facilidade. Que feitiço é esse que a natureza nos lançou? Que malhas mágicas enredam mãe e filho, urdindo um padrão que não pode ser mais do que AMOR? Tapeçaria sem fim, a cada momento juntando linhas e mais linhas a construir o mais belo futuro?

E logo ali, quando pensamos que temos a situação controlada, decide-se (ou às vezes não é uma decisão, mas um simples fluir natural!) ser tempo de aumentar a família. Encara-se o retrato, volta a empunhar-se o pincel, e com resolução começa a desenhar-se a forma e o sentido de uma nova gravidez. Mas agora, o tempo parece que escasseia. Ainda parece passar mais a correr, por entre as exigências da vida pessoal e profissional, e no equilíbrio dos quereres e poderes de uma criança já presente.

Cadeira do carro? Há a do mano. Os interiores? Estão em boas condições, dão para menino ou menina. Livros sobre bebés? Não me recordo da última vez que tive tempo para ler o que quer que fosse, tirando a história do momento de ir deitar. E logo ali, no fundo, bem no fundo, desenha-se o início de algo muito parecido com culpa. Não damos logo por ela, mas com o passar dos dias, e dos meses, avoluma-se. Não dediquei tanto tempo a esta gravidez como à anterior. Não tive tempo para sonhar, para imaginar, para dar de mim. Acordo a pensar que não consigo dar ao mais velho, e adormeço a pensar que não consigo dar de igual forma ao que tenho na barriga. Procura-se envolver o mais velho na gravidez, na chegada do novo irmão, garantir em voz alta para ele (e para nós próprias!!) “A mãe nunca vai deixar de te amar, vou estar aqui sempre para ti”. E cada vez a aproximar-se mais o momento, não projeto o parto e o nascimento, simplesmente espero. Só tenho forças para esperar, não mais.

Após termos o primeiro filho, não voltamos a ser quem éramos. É uma impossibilidade da natureza. E à chegada do segundo, também não somos mais quem éramos antes. E não faz sentido pensar que isso é, necessariamente, melhor ou pior. Até porque para cada uma, é simplesmente diferente. Mas o que faz ainda menos sentido é viver na culpa imaginária de que se retira a um, para dar ao outro. Ninguém se consegue dividir em partes uniformes, só podemos é aspirar a completar-nos. No meio do turbilhão de emoções do pós-parto, num segundo filho, estendo uma mão a quem também já fui, e a vocês que foram, são ou serão – há um tempo para tudo. Ele houve um tempo em que o vosso filho mais velho foi filho único. Sem necessidade de disputar, por um momento sequer, a vossa indelével atenção. Rei e senhor do vosso castelo. Mas esse foi um tempo, e o vosso bebé de segunda viagem pertence a um novo tempo. E mesmo sendo pequenino, e precisamente por ser assim tão pequenino, precisa de uma mãe “inteira”. Não precisa de uma mãe perfeita, (que nos livrem da tirania das “mães perfeitas!”), mas de uma mãe livre de culpa. Façam as pazes com as vossas expectativas, e a paz com a ideia de que só podem dar o que conseguem, não mais. E que isso, para uma mãe mulher, nunca é pouco. Deem sem medo a esse novo segundo ser na família, entreguem-se em todo. E pouco a pouco, o equilíbrio retomará no retrato da vossa família. A cada um num dia se dará mais, no outro dia menos, mas garantidamente no seio do amor, nunca pouco.

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