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Amamentar: uma dádiva, ou uma cruz?


De 1 a 7 de agosto de 2022 celebra-se a Semana Mundial do Aleitamento Materno, instituída com o propósito de promover e estimular a amamentação, e desta forma melhorar a saúde das crianças a nível mundial. O lema deste ano é “Fortalecer a amamentação: educando e apoiando”, e nunca como atualmente se verifica uma verdadeira necessidade de apoiar a amamentação.


Na realidade, a amamentação é uma responsabilidade de todos, e o que parece é que recai única e exclusivamente sobre a mãe. E quando assim é, existe uma forte probabilidade de as coisas não correrem bem. Noções de que “amamentar é natural”, “amamentar é fisiológico”, “amamentar é instintivo” criam nas mulheres uma pressão enorme, pois se assim não for, certamente será por culpa delas, e não porque ao longo da cadeia de responsabilidade, algo falhou. E porque é que é uma responsabilidade social partilhada? Claramente a amamentação traz benefícios para a mãe, e para o bebé, e isso é indiscutível. E estes benefícios têm impacto a longo prazo, em termos de saúde pública. Mas romancear este processo leva a que, deparando-se com as naturais dificuldades de estabelecer uma amamentação eficaz, seja muito mais fácil à mulher aceitar que fracassa no “papel da sua vida”, que é incompetente no propósito de assegurar a sobrevivência e a melhor saúde ao seu filho. O acesso fácil às fórmulas infantis, o constante assédio de palpiteiros, o desconhecimento sobre a fisiologia básica da amamentação, a falta de suporte nos primeiros dias e semanas do aleitamento aumentam exponencialmente a probabilidade de insucesso. É mais fácil para uma mãe pensar “não sou suficientemente boa para ser mãe”, do que “se calhar existe aqui um problema em que alguém me pode ajudar!”.


Amamentar é, atualmente, uma escolha da mulher, na grande maioria das situações. Felizmente. Com isto digo que existem poucas situações que possam contraindicar a amamentação, do ponto de vista médico. Mas para isso costumo dizer que ainda bem que dispomos de fórmulas infantis tão aproximadas do leite materno, e ainda bem que a indústria farmacêutica tem realizado uma investigação científica essencial no sentido de proporcionar a estes bebés o melhor possível, quando o leite materno não está disponível. Mas colocando estas poucas situações de lado, avança-se para a decisão materna – e aí a esmagadora maioria das mães, ciente dos benefícios da amamentação, tem vontade de amamentar. Quem decide de outra forma, seja qual for o motivo para tal, e desde que seja uma decisão informada, tem todo o direito de o fazer, e deve igualmente ser suportada e apoiada sem recriminações de ordem social, pessoal ou baseadas em preconceitos. “Mãe que não amamenta, não é menos mãe”. E sim, ser mãe vai muito além de amamentar – amar, cuidar, proteger não dependem da presença de duas mamas, meus amigos.

Agora, fundamental é (e independentemente da decisão final) que as mães se encontrem informadas sobre os benefícios da amamentação, mas também dos desafios da mesma. Não nos interessa nada que as futuras mães partam para este processo com ideias “cor-de-rosa” de que “vai tudo correr bem”. Porque se assim for, certo será que ao deparar-se com a realidade a mulher se sinta defraudada nas suas expectativas, e se abandone da possibilidade de levar a amamentação a bom porto. Não é fácil preparar alguém para a privação de sono, a constante demanda do bebé, a inicial inexperiência na interpretação dos sinais de fome do bebé. E qual é que é outro dos problemas, nesta fase – é que mesmo os profissionais de saúde que lidam com a saúde materno-infantil não possuem a formação necessária neste campo. Possuem “a experiência de longos anos de aconselhar mães”, a “experiência pessoal de amamentar” (ou não), mas não a necessária formação atualizada nesta área que, tal como todas as outras em saúde, está em constante atualização. E apesar de ser muito difícil para um profissional de saúde colocar as suas crenças e experiências pessoais de lado, é esse o dever quando se aconselha em saúde. Por isso, há que trazer a formação aos profissionais, que estão na linha da frente no contacto e no aconselhamento a esta população. Porque se assim não for, teremos as mulheres e futuras mães a recorrer ao aconselhamento dos tais palpiteiros, ou de uma ameaça crescente em saúde, que é os “pseudo-formados” de um mundo digital. Que não estão sujeitos a nenhuma responsabilização do ponto de vista ético, científico ou social. Pela sua importância, e impacto em saúde pública, há que promover o investimento na formação de quem tem o dever de aconselhar, para que através disto se possa trazer às mães o suporte de que necessitam nesta etapa crucial das suas vidas.


Amamentar pode ser uma das experiências mais bonitas da vida de uma mãe. Mas também pode ser a cruz mais pesada de um falhanço que ela terá de suportar durante toda a sua vida. E cabe-nos também a nós, profissionais de saúde, fazer a nossa parte para que seja sempre que possível a primeira.


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