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As voltas que a vida dá - take 2


No dia 13 de dezembro de 2020 fiz aqui no blog uma publicação intitulada “As voltas que a vida dá”. Nela, partilhei muito de mim enquanto mãe, mas também em que medida é que a experiência de ser mãe alterou (para melhor, penso eu) a minha vivência enquanto pediatra. Falei muito do meu filho mais velho, pois a publicação tinha a ver com o aniversário dele, e um pouco sobre o meu filho mais novo.

Quis a sorte que 11 dias mais tarde a vida para nós enquanto família sofresse um grande abalo, e daí surgiu o “atrás da cortina”, também publicado no blog. Seguiram-se durante o meu internamento as “uma história entre histórias” publicadas no Facebook, até finalmente à “minha história”, também publicada no Facebook.

Hoje, dia 7 de abril de 2021, faz 5 anos o meu filho mais novo. E por isso hoje, faz para mim mais sentido fazer uma nova publicação no blog, tal como fiz com o meu filho mais velho.

Eu costumo dizer aos meus filhos que tenho um filho mais velho favorito e um filho mais novo favorito. O mais velho ri-se quando eu digo isto, e o meu mais novo põe um ar muito zangado (capaz de quebrar a compostura a qualquer um de nós, nem imaginam o engraçado que ele fica, e o esforço que eu tenho de fazer para não me rir) e diz “isso é batota”, na sua fala característica.

Mas deixem-me falar um pouco sobre o meu filho mais novo. Há um ano atrás, exatamente, em pleno confinamento, e tal como todas as famílias, principalmente as que têm pais profissionais de saúde, ou de outra área considerada essencial, a nossa família passou por uma dura prova, com a separação “forçada” entre o pai dos meus filhos, de um lado, e eu e os meus filhos, do outro. Foram exatamente 47 dias de uma das piores experiências enquanto pais que passámos. O meu filho mais novo fez 4 anos durante este período. Teve direito a um bolo feito em casa, a uma prenda embrulhada em papel de jornal, a ver o pai à distância a cantar a plenos pulmões o “parabéns a você”, e a soprar uma vela que nem sequer tinha a idade certa dele pois era o que tínhamos disponível. E mesmo sendo um aniversário que nos custou muito, foi simultaneamente um dos mais sentidos, pois o meu filho mais novo ficou felicíssimo com tão pouco. Temos muito a aprender com as crianças, não é?

Este ano já tínhamos decidido que acontecesse o que acontecesse, iríamos tentar que o aniversário dele fosse “melhor” que o último. Perguntámos que bolo é que queria, e que prenda é que queria. Claramente disse logo que queria um bolo do panda, em relação à prenda foi um pouco mais difícil, porque na realidade o que ele queria era um animal de estimação. Foi sendo cada vez menos ambicioso no seu pedido, primeiro pediu um cão, depois um gato, depois passou para um coelho, um porquinho-da-índia, peixes, e finalmente para uma tartaruga. Isto porque eu e o pai acreditamos que ter um animal de estimação é algo que tem de ser decidido e bem pensado enquanto família. É uma grande responsabilidade que tem de ser partilhada por todos nós. Um animal é um ser vivo, alguns precisam de mais atenção do que outros, mais cuidados, e embora enquanto pais e até enquanto pediatras saibamos que no geral é muito positivo ter um animal de estimação para as famílias (ensina exatamente às crianças a serem responsáveis, também por vezes a lidar com a experiência da morte) tivemos de pensar muito bem. Um cão foi logo colocado de parte, simplesmente porque tanto eu como o pai já tivemos essa experiência mais novos, e eu particularmente passei pela experiência de ter de o deixar em hotéis para cães quando ia de férias para sítios que não aceitavam animais de estimação, e nunca ia descansada pois sabia que ele sentia imenso a minha falta, e o pobre do bicho quando eu voltava olhava para mim de uma maneira que eu sentia que tinha feito um crime de lesa majestade. Uma tartaruga, ou um cágado, era bom para o quintal, mas também não é propriamente o animal que seja mais afetuoso, não é? Seria certo que não teria velocidade para “escapar” dos litros de amor que os meus filhos têm para dar, mas sensatamente creio que o cágado iria perceber que seria bem melhor para ele recolher à carapaça assim que visse os meus filhos, para evitar acidentes, com risco da sua própria vida. Peixes seria igualmente uma opção, mas conhecendo a minha prole, iria existir novamente um problema de longevidade, pois se bem me recordo se lhes dermos comida a mais acho que morrem. E isso seria uma situação extremamente provável, principalmente com o meu filho mais novo. Certo é que poderiam ressuscitar como por milagre (os peixes vermelhos são todos iguais uns aos outros, não é?), mas não é a mesma coisa. Colocámos então a hipótese de um coelho. Quer eu, quer o meu marido, gostamos muito de coelhos. Mas é mais coelho à caçador, bôla de coelho, arroz de coelho... confesso que acho que se a pandemia alguma vez colocar a nossa sobrevivência em risco, seria um animal extremamente útil de ter em casa (consequentemente, no tacho), mas apenas nessa situação. Porquinhos-da-índia na internet, mas após vermos algumas fotografias no Google®, a imagem do porquinho-da-índia ficará sempre associada a políticos pouco recomendáveis, como poderão constatar na figura seguinte, e como tal foi excluída também pela gerência da família, a saber, eu e o meu marido.


Lembrei-me então que há muitos, muitos anos, eu considerei ter um gato, antes de me decidir pelo cão. E na altura, para ter ideia do que me esperava, comprei na feira do livro em Alcobaça “O grande livro do gato”. E, após aprovação da gerência, comunicámos aos nossos filhos que já tínhamos animal de estimação para a família – o gato. Capaz de dar e receber afeto, autossuficiente em muitas coisas, e bom para espantar ratos!!!

Os miúdos ficaram entusiasmadíssimos, mas combinámos que apenas teríamos um gato depois de lermos cada dia uma folha à noite do grande livro do gato, que ensina todos os cuidados que temos de ter na escolha, na alimentação, na higiene e na manutenção da saúde do bichano. São exatamente 15 folhas, portanto, são mais 15 dias que o meu filho mais novo, e toda a família, terá de esperar para conhecer o bichano, e em que o tradicional contar da história antes de dormir será substituído por estas páginas.


O que até calha muito bem, pois o gato que vem para nossa casa é de uma ninhada de uma vizinha, e só estará preparado para ser separado da mãe por essa altura. O que também o ensina a esperar por uma coisa que ele quer muito, em vez da típica facilidade do “eu quero” e “toma lá” imediatos.


Por isso, este aniversário é uma verdadeira homenagem ao meu pequeno “guerreiro” mais novo, que mesmo na ausência da mãe por doença aguentou estoicamente até ao meu regresso a casa. E, através dele, a toda a minha família de suporte e aos nossos amigos, que se mantiveram connosco durante todo este ano tão ímpar como nenhum outro.


Feliz aniversário, Tiago. Este ano tens direito a tudo o que pediste, e mesmo assim, é muito pouco comparado com a felicidade que nos trazes todos os dias por sermos teus pais.

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