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Como manter a saúde física e psicológica das crianças no confinamento?


No passado dia 7 de fevereiro, o polígrafo publicou um artigo para o qual fui convidada a colaborar, que fala sobre o impacto do confinamento na saúde física e mental das crianças e adolescentes. Esta problemática é extremamente importante, e refleti sobre ela com muita atenção, de que resultou um texto que agora passo a partilhar.



Em idade pediátrica estima-se que a percentagem de crianças afetadas pelo COVID-19 corresponda a cerca de 13% dos casos, oscilando entre os 10 e os 13%, aumentando a incidência com o avançar da idade. Apenas uma minoria das crianças com COVID-19 requer hospitalização, e na grande maioria dos casos está relacionada com a presença de comorbilidades associadas.


O impacto social, educacional, económico e físico da pandemia, com a necessidade de períodos prolongados e nunca antes experienciados de confinamento, por uma geração que tomava como garantidas liberdades próprias da sociedade, marcou definitivamente as famílias, que de um momento para o outro se viram privadas do acesso às estruturas que suportam o nosso modelo de vida. E a desigualdade social que já existia, mesmo em países desenvolvidos, foi ainda marcada por uma maior clivagem entre quem tem acesso à informação fidedigna e consegue filtrá-la na sua essência, daqueles que funcionam como simples recetores de uma mensagem transmitida pela comunicação social, e com menor acesso a tecnologias que hoje são consideradas indispensáveis, tão simples como a internet, computadores, mas até meios de conforto, como o aquecimento das habitações, e acesso a alimentação não processada. A sociedade centra-se em si e torna-se egocêntrica, fruto de uma viragem em que a saúde de todos depende do exemplo e das atitudes de cada um.


Subitamente, as famílias viram-se a braços com um modelo de educação à distância, mantendo contudo o teletrabalho em paralelo com a responsabilidade pela educação dos seus filhos. Pais foram professores, professores foram pais, desaparece para muitos o apoio familiar dos avós, desde o início tidos como potenciais “grupos de risco”, e o suporte de uma geração virada para o trabalho até cada vez mais tarde, e que confiava as suas crianças a este grupo de risco, ou então aos infantários e escolas que nesta fase estão encerradas.


Em casa desaparecem os limites do que é considerado “tempo de trabalho” e o “tempo de família”. Casais convivem 24h por dia, dia após dia, e filhos trazem sempre na boca a palavra “mãe” ou “pai”. O cansaço físico e psicológico a que isto acompanha extenua as famílias. Os mais desfavorecidos, com acesso apenas muitas vezes a uma televisão, um telefone, passam a ir buscar fichas de trabalho às juntas de freguesia, semanalmente, para que os filhos, muitas vezes já com as suas próprias dificuldades, as resolvam sozinhos. E apesar da telescola ser disponibilizada, a importância de manter um ritmo que promova a educação não é assegurada por quem, em regra, tem a maior responsabilidade de defender os interesses de todas as crianças, e fornecer o apoio consagrado na Convenção sobre os Direitos da criança, que é o estado, e no nosso caso, o Estado Português. Estas crianças e as suas famílias não foram protegidas como é o seu direito, e apesar do exemplo que nos chegava dos outros países, e da velocidade com que a informação sobre a infeção COVID-19 ia evoluindo e se ia materializando em medidas que pudessem ser eficazes na contenção da pandemia, o tempo passou. Esqueceu-se o que tinha sucedido no primeiro confinamento, e não se preparou a sociedade para um novo esforço e para a consciencialização de que o bem de todos depende do papel de cada um.


A família fica autocentrada, e o impacto é sentido a vários níveis. Ao nível físico, muitas crianças deixam de ter o acesso às atividades extracurriculares, aumentando o tempo de ecrã e o sedentarismo. A criatividade, própria da mente infantil, mas desenvolvida muitas vezes à custa de estruturas educacionais, e do contacto social, passa a estar indisponível. A alimentação saudável, pilar de um desenvolvimento físico e cognitivo adequados, passa a estar em causa, quer por incapacidade financeira, quer por ausência de conhecimento sobre as reais necessidades nutricionais da criança. E esta combinação de fatores, não antecipada por ninguém, potencia a dificuldade também na gestão de comportamentos alimentares. Resta dizer que os factos falam por si, no confinamento de 2020, 41,8% da população alterou os seus hábitos alimentares para PIOR. 60,9% da população manteve-se pouco ativa fisicamente.26,4% da população aumentou o seu peso corporal, e as crianças não foram exceção.


Como combater este fenómeno em 2021? Antecipando o impacto social que um novo confinamento vai trazer às famílias.

Estimulando a literacia em saúde, fornecendo a informação com uma linguagem simples, clara e segura. Evitando sensacionalismos, suportando o acesso a atividades criativas e artísticas tão lesadas por estes períodos. Assegurando o acesso igualitário às recomendações das associações pediátricas, quer a nível de tempo de ecrã, quer a nível de atividade física e alimentar. Suportando o peso social da ausência do suporte familiar fornecido por avós. Facilitando o direito inalienável de cada criança de que o estado lhe deve garantir cuidados adequados quando os pais ou outras pessoas responsáveis por ela não tenham capacidade para o fazer.


Na prática:

Assegurar a existência de tempo de ecrã dedicado a conteúdos educacionais e incentivando as famílias a aderir aos mesmos (por exemplo, séries como o “Era uma vez a vida”, atualmente em repetição na RTP2 durante as manhãs). Evitando a exposição a conteúdos não educacionais em horário nobre, promovendo os conteúdos de educação para a saúde da população. Filtrar a publicidade de acordo com os valores que se pretende serem transmitidos à população.

Fornecer indicações claras sobre a necessidade de atividade física, mesmo se no interior e sem possibilidade de acesso ao exterior. Estimular a criatividade, com jogos tradicionais como “a macaca”, o jogo do lenço…

Do ponto de vista alimentar, planear semanalmente a ementa familiar, fazer as compras de acordo com a lista previamente elaborada, pedindo a colaboração da criança e do adolescente na preparação das refeições e envolvendo toda a família nesta rotina.

Clarificar a importância de hábitos adequados, para pais, crianças e adolescentes, respeitar o ritmo circadiano e o ritmo das nossas necessidades básicas (sono, alimentação). Assegurar as necessidades em segurança, e posteriormente as necessidades sociais, de autoestima e finalmente de autorrealização. Apenas numa sociedade onde as necessidades básicas e de segurança estão garantidas é que existe lugar para a autoestima e para o conceito de felicidade.

Assegurar o acesso igualitário a medidas tão importantes na saúde como a vacinação, à consulta de rotina de saúde infantil e juvenil, não protelando a resposta que estas estruturas são obrigadas a fornecer no âmbito da sobrevivência e direito à saúde de cada um.


Mensagem final:

Finalmente, termino dizendo que não deve ser deixado “à sorte” o destino de cada criança e adolescente. O nascer e crescer saudáveis são da responsabilidade não só dos pais, mas de todos nós. A minha felicidade apenas existe se os que me rodeiam estão também felizes. E só é feliz quem come bem, vive bem, e pensa bem.


Fontes:

Convenção sobre os Direitos da Criança, Comité Português para a UNICEF, edição revista em 2019

React-Covid - Inquérito sobre alimentação e atividade física em contexto de contenção social. DGS 2020

Excesso de peso e obesidade parental e perceção do aumento de peso infantil, durante o confinamento em contexto da pandemia da COVID-19, em Portugal: Programa MUN-SI Cascais 2019/2020

Alimentação Saudável dos 0 aos 6 anos Linhas de Orientação para Profissionais e Educadores, PNPAS 2019

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