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Deixar um pedaço do coração para trás: lágrimas e vitórias na entrada para a creche


Olá bom dia, pais com esse coração tão apertadinho porque os vossos filhotes vão entrar na creche durante a próxima semana! É só para vocês que resolvi escrever este artigo, no ano passado não o fiz, mas este ano tenho acompanhado algumas famílias que se sentem tão ansiosas com esta mudança, que resolvi tentar ajudar um pouco a amenizar esta transição.

Sei bem a mistura de emoções que atravessa o coração nesta altura. Apreensão, ansiedade, alguma excitação também com a nova etapa… temperados com um toque de saudade pelo tempo em que o nosso bebé era só nosso, o receio da dependência de outra figura de referência… mas talvez seja bom pensarem que o que vocês estão a experienciar nesta altura é igual ao que tantos e tantos outros estão igualmente a passar e passam todos os anos, cada um da sua maneira particular. É reconfortante saber que não estamos sozinhos nesta jornada.


Nesta fase vocês já escolheram a creche. Alguns já terão tido reuniões “preparatórias” com os responsáveis, e educadores. Se tiveram a possibilidade de escolher, certamente o terão feito no sentido de perceber se a visão da creche se alinha com os vossos valores, as referências obtidas de outros pais e famílias, a interação entre os educadores e a família... se não tiveram a hipótese de escolher (sim, estou bem ciente que este ano foi uma luta para se conseguir creche), não é por isso que não vão procurar, num ambiente de mútuo respeito e entreajuda, que este novo espaço se torne um prolongamento da família da vossa criança.


Vamos então ver quais são as principais preocupações na entrada da creche?



1. O sono

Se eu tivesse de escolher a preocupação mais frequente dos pais (principalmente dos que têm bebés pequenos a entrar na creche) o sono seria sem dúvida o que causa mais ansiedade e angústia. Será que vão conseguir dormir na creche? Alguém vai adormecê-los ao colo como acontece em casa? Irão dormir bem? A resposta quase sempre é positiva, com um pouco de paciência e ajuste das rotinas. Como muitos de vós que acompanho em consulta reconhecerão uma das minhas frases preferidas nisto é “os bebés e as crianças têm chips diferentes para o sono em casa, e na creche”. E é verdade! Eles reconhecem o ambiente diferente, e é com relativa facilidade que adotam rotinas diferentes em locais diferentes. Por isso, nada de desesperos!

Primeiro, é importante que o pessoal na creche esteja familiarizado com a rotina de sono do vosso bebé ou criança. Partilhem aquele pequeno “mimo” que faz o vosso bebé deslizar para o sono, se precisa de algum objeto ou canção... esta comunicação aberta entre vós e a creche vai permitir criar um ambiente em que a vossa criança esteja mais segura, e automaticamente com maior facilidade em iniciar e manter o sono.

Segundo, tal como referi acima, se existe um determinado peluche, ou fralda, com o qual a vossa criança esteja habituada a dormir, lembrem-se de a fazer acompanhar por ele para a creche. Este objeto vai dar uma sensação de segurança e familiaridade, e facilitar o processo do sono.

Terceiro, mantenham a rotina do sono consistente. Isto é particularmente importante na questão dos horários, e a diferença que pode haver entre dias de semana e fim de semana. Se forem mais ou menos idênticos, vai haver mais facilidade de adaptação do vosso bebé.



2. A alimentação

Esta é outra dor de cabeça para os pais. Mas temos de confiar também na experiência de muitas e muitas crianças que já passaram pela creche, e na preocupação da grande parte dos estabelecimentos (e felizmente cada vez mais crescente) com providenciar uma alimentação saudável e equilibrada.

Então neste capítulo e em primeiro lugar, é fundamental informar a creche caso exista alguma restrição alimentar por motivos de saúde. É por exemplo o caso da alergia à proteína do leite de vaca, frutos secos, ou ao ovo. Em algumas situações será mesmo necessário ter medicação específica disponível na creche, e é essencial que o pessoal esteja capacitado para atuar em caso de necessidade. Esta informação vai permitir que o bebé e a criança estejam seguros, e que se zele pelo seu bem-estar.

Algumas creches permitem que se leve comida própria, em alternativa ao oferecido pela creche. Pode ser importante para a criança levar alguns alimentos que lhe sejam mais familiares, para aumentar a sensação de segurança e conforto nas refeições. Por outro lado, também é uma alternativa caso em casa usem determinados alimentos que considerem ser mais vantajosos do que as ofertas na creche.

Lembrem-se sempre que a maioria das crianças gosta de imitar o comportamento à sua volta. Por isso, grande parte delas terá mais facilidade em experimentar novas comidas (até algumas em que não tocam em casa!) por ver todas as outras crianças a comer. É um bónus, não é?



3. A comunicação com a creche

A creche onde o vosso bebé ou criança acabou de entrar será provavelmente o sítio onde vai passar a maior parte do seu tempo acordada, e se calhar durante vários anos. Criar uma relação forte de confiança e respeito entre a família e o pessoal da creche é essencial para a segurança de todos, e para o bem-estar do vosso filho. É muitas vezes importante ainda antes de começar a fase da adaptação da criança fazer algumas visitas ao espaço, para que o ambiente e as caras sejam de certa forma menos estranhas para diminuir o embate de ficar num espaço novo.

Nunca deixe de perguntar, quando tem dúvidas. Nunca deixe de partilhar preocupações, ou desejos que tenha e instruções específicas em relação ao seu bebé. Mas saiba igualmente ouvir. Você é quem melhor conhece o seu filho, mas a grande probabilidade será que o pessoal da creche tenha experiência com muitas e das mais variadas situações.

Caso faça sentido, e seja possível, procure combinar encontros com outros pais da creche, em parques infantis ou outros locais de brincadeira, para que possam conviver igualmente fora daquele espaço. Muitas creches também promovem encontros específicos em dias comemorativos, que são excelentes oportunidades para conhecer outros pais, e estabelecer relações com maior vínculo entre o pessoal da creche e as famílias.



4. O período de adaptação

Cada vez mais se ouve falar dos benefícios de fazer uma adaptação gradual à creche, e a verdade é que sempre que isso seja possível, é uma excelente forma de facilitar a adaptação da criança, e diminuir a ansiedade e angústia dos pais com a separação.

Então, em que é que consiste esta adaptação gradual? Basicamente, o que se pretende é que o bebé ou criança seja gradualmente exposta a períodos crescentes de tempo em que vai ficando neste novo espaço, o que lhe permite familiarizar-se mais facilmente e diminuir a sensação de insegurança. Por outro lado, vai ainda permitir a transição para fazer novas figuras de referência neste novo ambiente. Então, o ideal é começar apenas com visitas de curta duração, várias, em períodos que podem ser tão pequenos como 15 ou 20 minutos, para que a criança possa conhecer a creche e as pessoas que estarão perto dela. Nestes períodos, encoraje o seu pequeno a interagir com os novos cuidadores. Assim, à medida que o tempo em que permanece vai-se prolongando, ele já estará mais confortável e seguro. Depois então, por um período que vai variar entre crianças, mas que idealmente deve ter uma a duas semanas de duração, gradualmente vá aumentando o tempo em que a criança fica na creche. Esta abordagem vai minimizar aquela sensação de “corte abrupto” com toda a rotina à qual o vosso bebé estava já habituado, nos meses ou até anos anteriores da sua vida. Outra coisa que é importante é, sempre que possível, que um cuidador de referência possa acompanhar a criança na creche durante os primeiros dias, ou seja, durante os primeiros períodos em que a criança a frequenta, que possa ficar junto dela até que seja transferida alguma da segurança para a educadora ou outro pessoal responsável na sala. Isto também lhe dá a possibilidade de se ir adaptando calmamente ao novo ambiente que a rodeia.

Tal como eu disse acima, este período de adaptação vai ser bastante variável de criança para criança, e como tal, vai haver crianças que se calhar se vão adaptar muito facilmente ao novo ambiente e às novas rotinas, enquanto outras vão precisar de um pouco mais de tempo. Ter paciência, compreender e respeitar a criança, e ser flexível são os pontos-chave a recordar para que este processo seja o mais tranquilo possível.



5. Dizer adeus

Embora seja o momento mais temido pelos pais, aquele em que finalmente temos de dizer adeus e virar costas ao nosso bebé, não posso deixar de frisar quão importante é este gesto. É uma altura muito emotiva, mista de preocupação e até por vezes um pouco de culpa, mas é essencial que se despeça do seu bebé ou criança. Ao dizer adeus de forma confiante, carinhosa e consistente, vai ajudá-lo a construir a segurança de que voltará para o vir buscar ao longo do dia. Que a separação é temporária, e que mais tarde irá retornar a casa. A previsibilidade da despedida progressivamente reduz a ansiedade, e ajuda a estimular a independência e autoestima da criança. Pode optar por usar sempre a mesma frase e o nome carinhoso com que trata o seu bebé, incluir quando é que vai voltar para o vir buscar, permitir que ele guarde um objeto de transição que lhe possa dar conforto durante o dia. Seja sempre honesto/a sobre quem vem buscar a criança, e a que horas/em que altura do dia. Se disser que a vai buscar depois da sesta, é melhor que cumpra essa promessa! Não prolongue demasiado a despedida, pois isso pode aumentar a ansiedade. Despeça-se com calma e confiança, e saia. Uma outra estratégia que pode ajudar é, antes de dizer o seu adeus, estabelecer uma pequena conversa com quem vai receber a criança. Este tipo de comportamento de certa forma reforça junto do seu filho que tem confiança nas pessoas que vão ficar com ele.

Acima de tudo, por muito que lhe apeteça, nunca desapareça “simplesmente”. Este tipo de comportamento por parte dos cuidadores apenas leva a uma maior ansiedade por parte da criança, à insegurança, e à sensação de que tem de estar sempre vigilante porque nunca sabe quando a mãe ou o pai vão desaparecer.


Bom, sei que todos e mais alguns conselhos nunca serão suficientes para acalmar esses corações de pais. Mas a verdade é que “o que tem de ser tem muita força”, não é? Nenhum de vocês está a abandonar o vosso bebé ou criança. Estão simplesmente a entrar numa nova etapa, uma em que é necessário conciliar vários papéis, e esse equilíbrio vai demorar algum tempo a atingir. Ninguém aqui está à espera que sejam super-heróis insensíveis. É assim que as famílias se cuidam, e se amam – procurando fazer o melhor que sabem para que cada um se sinta o melhor possível.

Por isso, boa sorte. Vocês e os vossos bebés estão a crescer. Deem-lhes todas as asas para que, no fim do dia, retornem ao vosso ninho.

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