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Ecrãs – Babysitter do século XXI


Quando me foi levantado o desafio de apresentar uma comunicação sobre o impacto dos ecrãs, ou papel destes, enquanto babysitter do século XXI, eu já estava um pouco à espera do que iria encontrar. Penso que a maioria de nós tem noção de que expor crianças em idades precoces a um ecrã terá, necessariamente, consequências do ponto de vista de desenvolvimento. Mas à medida que aprofundei o assunto, confesso que fiquei muito preocupada com os dados que encontrei. E é esta preocupação que agora vos procuro transmitir, porque somos todos adultos responsáveis pelas crianças que educamos – enquanto pais, enquanto professores ou agentes de educação, enquanto médicos, enquanto sociedade.

 

Vivemos numa era digital, e não há nada que se possa dizer acerca disso. A tecnologia de ecrã é omnipresente, facilita a nossa vida, e não vai desaparecer. Mas em que medida é que a exposição de crianças com menos de dois anos à tecnologia digital pode afetar o seu desenvolvimento, e a sua saúde?

 


Em 2018, já antes da pandemia COVID e da “sobrecarga” de exposição digital que ocorreu nessa altura, o Projeto “Happy Kids”, conduzido pela Universidade Católica, que recolheu cerca de 2.000 questionários de famílias com crianças entre os 0 e os 8 anos, reunia alguns dados preocupantes. Cerca de 90% dos lares tinha acesso à tecnologia digital, e as crianças entre os 0 e os 2 anos eram as que mais usavam Apps, principalmente para os pais as manterem entretidas em restaurantes, ou para fazerem tarefas domésticas – e aqui, sobressaíam o uso de jogos e do Youtube.

 


Portanto, é um problema que interessa abordar. E porque é que a exposição tão precoce a ecrãs pode alterar de facto o desenvolvimento nesta altura tão crítica? O que é que tão importante acontece no cérebro de uma criança entre os 0 e os 2 anos? Muita coisa, mas uma fundamental é o processo de poda neuronal. E vou-vos explicar o que isto é. Ao nascimento, o cérebro de um bebé possui cerca de 100 biliões de neurónios – 15% a mais do que terá enquanto adulto. Estes neurónios comunicam através de um mecanismo chamado sinapse – semelhante a uma estrada, que liga vários pontos do cérebro. Para uma criança aperfeiçoar uma dada competência, essa estrada tem de ser percorrida muitas, e muitas vezes. E as estradas mais usadas pelo cérebro são fortalecidas, e tornam-se principais. Aquelas que não são usadas, degradam-se, e finalmente, acabam por ser cortadas. Este é o processo de poda – a eliminação de estradas secundárias, para privilegiar as principais. E quando se perdem, são quase irrecuperáveis. Daí dizermos que, ao longo dos primeiros anos de vida, é essencial a criança treinar determinadas habilidades, porque mais tarde não as poderá adquirir.

 


É um facto que as crianças com menos de 2 anos não têm a capacidade de processar informação proveniente de ecrãs – só a partir desta idade começam a retirar informação do seu meio envolvente. E desenganem-se se têm a ideia de que estou a falar unicamente da exposição direta aos ecrãs...

A exposição aos ecrãs em background (a mais comum sendo a televisão sempre ligada quando alguém está em casa), mesmo que em programas não dirigidos à criança, tem igualmente efeitos negativos estabelecidos – está demonstrado por um lado que diminui a interação entre o cuidador e a criança, e que por outro distrai a criança, que perde o foco da sua brincadeira para assistir à publicidade, ou atraída por um som mais forte, e volta à brincadeira perdendo o fio condutor inicial, e saltando de atividade em atividade. O efeito direto da exposição é fácil de compreender, uma vez que diminui o tempo que a criança passa em brincadeira não estruturada (o principal estímulo para o seu desenvolvimento nesta idade), atraída por uma multiplicidade de estímulos quer visuais, quer auditivos. E reduz o seu tempo de interação e comunicação com os pais, com irmãos, ou outros conviventes.

 

No sono, os efeitos são também já sobejamente conhecidos. A exposição à luz azul do ecrã funciona como supressora da secreção da melatonina, essencial para a regulação do ritmo sono-vigília, e indução apropriada do sono. Para não referir a questão de que a estimulação mental e cognitiva dos conteúdos a que a criança está exposta imediatamente ou pouco antes da hora de dormir aumenta o tempo de latência para o início do sono, a ansiedade, e o número de despertares durante a noite.

 


Em relação ao risco futuro de obesidade, também podemos apontar alguns riscos da exposição precoce aos ecrãs. Em primeiro lugar, vou falar da exposição aos ecrãs como distrator durante o período da refeição. Estou bem ciente que é um método usado por muitos pais, quando existe alguma dificuldade em alimentar a criança, porque enquanto ela está distraída a ver o tablet (ou semelhante), os pais conseguem “enfiar” a comida que pensam ser necessária para alimentar a criança. O que, na realidade, cria uma completa desconexão entre a alimentação e a criança, e um completo desconhecimento da sensação de saciedade, bem como dos sinais de fome. Que fica para o futuro. Adultos completamente dissociados da sua regulação interna em termos de alimentação, com padrões alimentares desequilibrados, e que associam ecrãs à comida. Que não aprenderam que a refeição é igualmente um momento de relação, de  comunicação, de troca e partilha social. Que não sabem regras básicas de etiqueta, ou de comportamento à mesa.

Em paralelo, podemos ainda dizer que se o brincar é a atividade física não estruturada fundamental para crianças pequenas, com impacto real no gasto energético e no balanço metabólico, crianças sedentárias são crianças com mais risco de desenvolver obesidade, em qualquer momento das suas vidas.

 

E a saúde visual? Uma palavra também para esta, uma vez que muito se tem falado nos últimos tempos sobre o aumento dos casos de miopia em crianças. Sabe-se atualmente que o fator protetor mais importante para a prevenção da miopia é a exposição a luz natural pelo menos 2 horas por dia. Ora o tempo que as crianças passam nos ecrãs, é tempo diretamente retirado a esta necessidade, e pode efetivamente contribuir para o aumento do número de situações que se veem atualmente.

 


E finalmente, do ponto de vista formal do desenvolvimento, deixo-vos com alguns dados alarmantes, provenientes de uma revisão sistemática publicada na Brain Sciences, já em 2024, que é mais chocante do que qualquer texto que eu possa dizer. Vejam bem, e pensem sobre estes números.

- a exposição passiva à televisão diminui as vocalizações e tentativa de comunicação dos bebés entre os 2 e os 48 meses com o seu cuidador;

- a exposição a ecrãs mais do que duas horas por dia aumenta 4x o risco de atraso do desenvolvimento psicomotor entre os 12 e os 35 meses;

- a exposição a ecrãs mais do que duas horas por dia aos 12 meses aumenta 6x o risco de atraso de linguagem;

 

Posso dizer-vos, sem sombra de dúvida, que crianças abaixo dos 2 anos não têm NENHUM benefício na visualização ou interação com ecrãs. Afeta o seu desenvolvimento, afeta a sua saúde, e afeta a sua dinâmica familiar. Confiar cegamente na tecnologia para educar e entreter as nossas crianças é plantar sementes para um futuro onde a ligação humana e o desenvolvimento do ser humano são sacrificados à sua conveninência. É este o futuro que queremos para os nossos filhos?

 

Deixo-vos, como não podia deixar de ser já que estamos a falar de ciência, alguns artigos e links que podem consultar e que serviram de base para a redação deste texto.

 

2.     Massaroni, V.; Delle Donne, V.; Marra, C.; Arcangeli, V.; Chieffo, D.P.R. The Relationship between Language and Technology: How Screen Time Affects Language Development in Early Life—A Systematic Review. Brain Sci. 2024, 14, 27. https://doi.org/10.3390/brainsci14010027

3.     Ari Brown, Council on Communications and Media; Media Use by Children Younger Than 2 Years. Pediatrics November 2011; 128 (5): 1040–1045. 10.1542/peds.2011-1753

4.     COUNCIL ON COMMUNICATIONS AND MEDIA, David Hill, Nusheen Ameenuddin, Yolanda (Linda) Reid Chassiakos, Corinn Cross, Jeffrey Hutchinson, Alanna Levine, Rhea Boyd, Robert Mendelson, Megan Moreno, Wendy Sue Swanson; Media and Young Minds. Pediatrics November 2016; 138 (5): e20162591. 10.1542/peds.2016-2591

5.     Madigan S, Browne D, Racine N, Mori C, Tough S. Association Between Screen Time and Children's Performance on a Developmental Screening Test. JAMA Pediatr. 2019 Mar 1;173(3):244-250. doi: 10.1001/jamapediatrics.2018.5056. Erratum in: JAMA Pediatr. 2019 May 1;173(5):501-502. PMID: 30688984; PMCID: PMC6439882.

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