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Fora com as comparações!


É muito frequente, no dia-a-dia, principalmente em ambientes com várias crianças, ouvirmos frases como "ah, o teu filho já fala tão bem... e o meu, com mais uns meses, ainda não diz quase nada!", ou "o irmão por esta altura já andava pela casa toda!". E não é só em relação ao desenvolvimento, mas também em relação à comida, ao sono... tudo pode ser uma fonte de comparação, quando falamos de crianças!

O ser humano tem uma "tendência" natural para comparar. Isto é, vai procurar aquilo que já conhece, e que lhe é familiar (e de certa forma, lhe dá segurança) e depois procura identificar no que é novo as mesmas características. E se não as encontra, surge a insegurança... será que há alguma coisa de errado? Por vezes, estas situações geram tanta ansiedade nos pais, e familiares, que levam ao próprio sofrimento da família.

Em primeiro lugar, falemos de desenvolvimento - o desenvolvimento, ao contrário do peso, ou do comprimento, não é algo que consigamos "medir" e atribuir um valor exacto. É assim mesmo, não tem como fugir, é traduzido num intervalo de tempo em que esperamos que a criança atinja determinadas competências que se verificam nas crianças saudáveis da sua idade. Isto porque quem estudou a fundo o desenvolvimento infantil (e dou como exemplo uma das referências do desenvolvimento infantil, a pediatra Mary Sheridan, do trabalho da qual resultaram escalas de desenvolvimento ainda hoje usadas, mais ou menos modificadas), percebeu que as crianças evoluem no seu desenvolvimento por etapas, sequenciais, umas mais rapidamente, e outras mais lentamente. Traduzindo por "miúdos", um bebé que anda sozinho aos 11 meses, poderá ser normal? Sim. Uma criança, que não anda sozinha aos 17 meses, poderá ser normal? Sim. Mais do que uma única coisa, a criança deve ser vista como um todo. Portanto, quem avalia o andar, também avalia o agarrar, o explorar, o comunicar, o ouvir... E soma tudo, para se assegurar que este processo está a decorrer conforme seria de esperar. Daqui surge uma noção muito importante, se a criança está a ser seguida regularmente em consulta com o seu médico assistente, fazendo as avaliações periódicas recomendadas, sem sinais de preocupação, então, fora com as comparações no desenvolvimento!

Em segundo lugar, falemos de comida. A comida também pode ser uma preocupação, e muitos dos pais que possam ler este texto já passaram por isto, e identificam-se certamente. O ir a casa de uns amigos, cujo filho pequeno tem sensivelmente a mesma idade que o deles, e ficar a ver a criança que come com a destreza de um campeão (segura impecavelmente na colher, e até usa garfo e faca!) enquanto come sem pestanejar um prato com duas conchas de sopa, o segundo prato que até tem feijão verde e cenoura, e uma pêra inteira (só faltava a criança descascar a pêra para ser considerada um verdadeiro prodígio!). E os pais olham para o seu filho, em que uma concha de sopa já é um tormento, e que apenas "depenica" o segundo prato, e pensam "decerto que estamos a fazer alguma coisa mal!". E não dão espaço para a simples hipótese de que, cada criança tem a sua própria regulação do apetite, e que, perante um crescimento adequado, a preocupação deve ser oferecer em qualidade, e deixar a criança controlar a quantidade. Então avancemos, pois estamos perante uma segunda noção muito importante, se a criança está a ser seguida regularmente em consulta com o seu médico assistente, fazendo as avaliações periódicas recomendadas, sem sinais de preocupação, então, fora com as comparações na alimentação!

Em terceiro lugar, falemos de sono. E entrar nesta temática é difícil, pois é um assunto muito sensível. Isto porque dormir é tão importante, para crianças e adultos! Por isso, quando às vezes alguns pais dizem "é tão bom, esta criança dorme a noite toda desde que nasceu, nunca me deu uma noite má!" os pais do lado podem quase sentir o ímpeto para ir buscar uma marreta e dar umas boas marteladas neles próprios, pois desde que a sua criança nasceu, que não sabem o que é dormir uma noite seguida. Daí segue que, se os pais do lado conseguem, serão eles que estão a falhar de alguma forma. Antes fosse assim tão simples. Mas mesmo na questão do sono, cada criança é uma criança, e cada família é uma família, e o que funciona para uns, não é garantido que funcione para outros. Os ritmos são diferentes, os contextos e hábitos também... de maneira que, mesmo na questão do sono, fora com as comparações. E se os pais acham que existe um problema, mais do que comparar, devem tentar aconselhar-se com quem melhor os conhece do ponto de vista de saúde, que é o seu médico assistente.

Com tudo isto (e muito mais haveria a dizer, sem dúvida), eu gostaria de deixar-vos como comecei esta publicação, com "fora com as comparações". Os bebés, crianças, e adolescentes são todos diferentes. As famílias são todas diferentes. E é, realmente, aí que reside uma das maiores belezas da natureza. Seremos diferentes, e não há mal na diferença, mas bem no que nos torna especiais a todos.



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