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O caminho para a (perdição) perfeição


Nunca como hoje se vê tantos pais a esforçar-se para que os seus filhos sejam felizes. Friso aqui a parte em que se lê – “nunca como hoje se vê” – pois certamente antigamente também os pais queriam que os seus filhos fossem felizes, mas este desejo não entrava pelas nossas casas adentro. Depois há que reforçar que o esforço é também para que não sejam erros seus que possam impedir que tal aconteça.

A exposição digital massiva que se tem verificado ao longo dos últimos anos abriu-nos as portas para um “voyeurismo” constante da vida de famílias comuns, mas também de outras que não serão assim tão comuns. Partilham o seu quotidiano connosco, e todos encontramos pontos de conexão com que nos identificamos, e subitamente já não nos sentimos tão sozinhos, o que é uma sensação fantástica. Afinal, não são só os nossos filhos que fazem birras, ou que se sujam todos a comer, ou que fazem trinta por uma linha para não irem para a cama. Parece que não somos assim tão maus, não é?

Um olhar mais atento pode mostrar-nos, contudo, que não é só isso que este acesso “ilimitado” nos dá. Mas muitas vezes acabamos por nem dar conta disso, o simples questionar se que o que estamos a fazer, afinal, é o melhor para os nossos filhos.


Segue-se uma sátira do que pode acontecer, nos dias de hoje, a uma mãe na "era digital".


Abro o meu instagram. De repente, vejo que cozinhar tofu pode dar ao meu filho a oportunidade de ter uma alimentação mais saudável, e uma alimentação mais saudável leva a uma vida provavelmente mais longa. O que me parece muito bem, só que eu não sei cozinhar tofu, não fazia parte do repertório culinário da minha avó, ou da minha mãe. Aliás, estou convencida que não sei muito bem o que é isso do tofu, mas não importa. Certamente é uma coisa boa, e se eu não o fizer, vou-me sentir pessimamente, porque não só não estou a fazer tudo o que posso, como se calhar até sou preguiçosa porque não quero aprender. Uma boa mãe não se pode permitir a ser preguiçosa, por isso, vamos lá comprar tofu e passar um bom par de horas a tentar torná-lo comestível. Correu bem, ok, já estamos a comer tofu lá em casa (tirando o pai, que é contra essas modernices). Faço das tripas coração para conseguir enfiar um bocado à colher na boca do miúdo, o que é normal, porque tenho de oferecer 11 a 15 vezes um novo sabor para que ele se habitue, ele que nunca viu tofu mais gordo. Já estou a contar! Mas eis que me apercebo, já estou a falhar novamente. Estou a oferecer o tofu à colher! Crime de lesa-majestade. Não posso dar comida à colher, vi online, porque compromete a autonomia da criança e não respeita o seu corpo e a sua fome. Não, tenho de procurar que ele explore os alimentos à mão. Acho é que isto não é assim tão fácil, porque ouvi dizer que se lhe dou alimentos com cortes desajustados ele pode engasgar-se e isso sim, já me parece um problema bem grave. Parece-me que tenho de ir fazer um daqueles cursos online para aprender essas coisas, porque creio que se não o fizer o meu filho pode morrer, e definitivamente isso ia colocar-me na lista das piores mães de sempre. Não só preguiçosa, mas desleixada e forreta porque não querer gastar dinheiro a aprender como alimentar o meu filho de forma respeitadora, e segura.


Bom, estou a progredir bem. Já sei cozinhar tofu, já sei cortar os alimentos de forma segura para os oferecer em “finger food” ao meu bebé, mas o coitado fez tal javardice que eu acho que lhe vou ter de dar banho antes de o deitar. Vou metê-lo na banheira e esfrego-o da cabeça aos pés. Mas alto lá! Não posso, ouvi dizer, usar uma banheira qualquer. Quer dizer, poder até posso, mas acho que não é a mesma coisa. Há umas banheiras que vi online algumas mães usarem, tipo balde. Cá para mim aquilo é um balde, mas de marca. Um bocado caro. Mas diz que recria o ambiente uterino, o plástico não tem BPA, e isso merece sem dúvida uns bons euros. Exceto para o pai, que diz que a mãe dele lhe dava até banho na pia, e que isso são frescuras minhas. Seja como for, acho que não me vou arriscar a pensar um dia que os BPA do balde lá de casa deram cabo da saúde do miúdo, lhe causaram cancro ou parecido. Vou comprar uma dessas chiques.


Banho tomado, está na hora de ir dormir. Agora é que a porca torce o rabo. Nesta estou ainda aos papéis. Há quem diga que devo deitar o miúdo no quarto dele e na cama dele, para estimular a autonomia. Se chorar, chorou, só chora as duas ou três primeiras noites, depois passa-lhe. É para aprender a ser forte. Depois, há para aí uma corrente que diz que isso aumenta uma hormona e que ficam traumatizados para todo o sempre se choram muito. Eu confesso que me custa muito que ele chore. Mas também me custa que o miúdo durma lá no quarto, o pai já diz que ele tem que sair porque lugar de filho não é na cama dos pais, ele quer estar comigo na cama e o miúdo não dá tréguas. Sobe para cima da gente, desce, são 4 da manhã e o pai trabalha por turnos, qualquer dia ainda me dá uma sapatada ao miúdo, e depois é pior do que aquela bronca da Live com a menina das novelas, e ainda me denunciam por maus tratos à criança. Nesta não sei mesmo como fazer. Às vezes acho que as pessoas que habitam as histórias do meu instagram não percebem mesmo o que se passa aqui em casa. Em casa delas deve ser diferente. Conseguem fazer tudo, e eu sou uma desgraça que não consigo dar conta de nada.


Eu podia continuar, e continuar (não falei do sapato respeitador, dos perigos de elogiar, dos perigos de não elogiar, do brincar em natureza, do desrespeito de obrigarmos a criança a dar beijinho na avó velhinha...), mas nesta fase, temos de voltar desta sátira de mãe atormentada, e eu gostaria de terminar com uma mensagem amiga e de compreensão a todas as mães que sentem que são tudo menos perfeitas, perante vidas que nos mostram o que decidem mostrar, nas redes sociais.

Em muita coisa do que se vê online, é preciso passar o crivo do bom senso, e refletir sobre se faz sentido para nós, no nosso contexto. Ninguém conhece as vossas condições como vocês. Isto não é uma competição de quem é a melhor mãe (ainda não se lembraram disso para a televisão, mas também com o que passa no mundo digital, não me parece ser necessário), e não se sintam pressionadas pelas experiências dos outros. Decidam pelas vossas cabeças, e orgulhem-se disso. De serem a melhor mãe que o vosso filho ou filha pode ter, por serem vocês próprias.

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