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O drama das urgências


Com as urgências a regressar a um familiar caos, que se repete e tende a agravar todos os anos (principalmente nos meses de outono e inverno), senti que estava na altura de partilhar as minhas reflexões convosco. Este problema toca-nos a todos, e ao invés de nos dividir, profissionais e utentes, devia na realidade unir-nos. Mas o que acaba por acontecer é que nunca a expressão “dividir para conquistar”, um dos motes do imperador romano César, tão bem se aplicou.

Antes de mais, interessa dizer-vos que este problema não é, de forma nenhuma, um novo problema. Mesmo eu, enquanto pediatra, lembro-me bem do que eram as urgências hospitalares há 15 anos atrás, e do que se tornaram nos últimos anos. E não é uma imagem bonita. Partilho com vocês que um dos motivos que também pesou na minha opção de deixar o Serviço Nacional de Saúde em 2019, foi esse, o desgaste intenso que eu sentia ao fazer urgência.


Interessa a alguém passar a imagem de que os profissionais de saúde (se calhar aqui mais os médicos, e os enfermeiros, que são muitas vezes os visados) são uns ogres (felizmente ainda ninguém se lembrou de dizer que éramos verdes) gananciosos, mercenários que não querem trabalhar na urgência pública mas depois vão e fazem urgências no privado pagas a peso de ouro. Bom, detesto defraudar esta bonita fábula, mas a maior parte dos médicos (há sempre colegas que têm outros objetivos) gostava simplesmente de ser adequadamente pago por um serviço que é de uma responsabilidade tremenda (sim, quando os médicos erram alguém pode morrer, o que convenhamos que nunca dá muito jeito, principalmente a quem morre), e ter garantido um horário que lhe permitisse satisfazer as suas necessidades fisiológicas (fazer chichi, alimentar-se) e estar na plena posse de todas as suas faculdades mentais, o que garantidamente não acontece se trabalhar em turnos de 24h seguidas. Às vezes não há a perceção de que os turnos se prolongam desta forma – “mas trabalham 24h seguidas? Como?” Simples. Uma hora a seguir à outra. E quando estás a chegar à 22ª hora, dito por quem lá passou muitas vezes, o teu discernimento não é o da 1ª. “Mas isso é porque querem, dividiam os turnos e não trabalhavam tanto tempo”. Pois. E depois, com a carência de médicos que grassa, está-se dia sim dia não de urgência. E uma pessoa pensa – “mais vale despachar o sacrifício todo de uma vez do que andar a sofrer às pinguinhas sempre”. Porque para grande parte de nós é um sofrimento – saber que se vai entrar de urgência, onde vão estar 5 a 6 horas de espera (ou mais), que a maioria dos casos são não urgentes e não precisavam de estar ali, e com medo de, no meio da confusão e da tentativa de “despachar” os casos não urgentes, deixar passar a meningite no início, que depois aparece 6 ou 8 horas mais tarde a morrer... Recordo particularmente uma segunda-feira péssima no serviço de urgência, em que nos morreu uma miúda na sala de reanimação vítima de um acidente de viação, tínhamos estado em manobras de reanimação que não resultaram, e estávamos a falar com o pai (lavado em lágrimas, a esposa esta em estado crítico na urgência de adultos), e entrou um pai de uma criança todo esbaforido a perguntar quando é que chamávamos o filho, que era impossível que uma criança com febre fosse deixada 2 horas à espera para ser vista. Eu pensei que ele nos ia bater. E mesmo explicando que tinha havido uma emergência, o que tinha obviamente atrasado os casos não urgentes, a resposta foi que era má gestão que todos os médicos tivessem de estar ocupados com a criança que faleceu. E eu pensei, mas não disse, que se fosse o filho dele o que ele mais desejaria era que todos os pares de mãos estivessem disponíveis para o tentar salvar. Porque numa emergência, não há pares de mãos a mais. Cada um tem a sua função, e cada um tem de estar concentrado nela, para que exista a maior probabilidade de sucesso. Lembro-me disto como se fosse hoje. E sabem que mais? Depois desse miúdo falecer, quando nós apenas queríamos ir embora e chorar também para casa (não quero com isto diminuir de forma nenhuma a dor dos pais, nem comparar com a nossa), tivemos de continuar a trabalhar o resto do turno. E o resto do turno, que me lembro, ainda foram 16 horas, porque isto aconteceu ao final da tarde. 16 horas a pensar no que poderíamos ter feito de diferente, 16 horas a pensar se fizemos tudo bem, 16 horas a ver casos não urgentes a pensar na morte que nos tinha passado pela mão, e a pensar porque é que aquelas pessoas na sala de espera estavam lá, quando a maior probabilidade era que os filhos estivessem constipados, ou com diarreia, ou com coisa nenhuma.


Eu não tenho, de forma nenhuma, a ideia de que as famílias que recorrem ao Serviço de Urgência hospitalar com os seus filhos doentes tem vontade de ir para lá, passar umas quatro ou cinco horas de puro entretenimento numa sala de espera cheia de vírus. Acredito que as pessoas vão lá pelos seguintes motivos: porque sentem que não têm outra alternativa, porque acreditam que serão melhor orientados pelos médicos, ou porque falham na perceção do que é doença grave. Acho que serão possivelmente as três principais razões que motivam a ida destes cuidadores ao serviço de urgência. Portanto, custa-me ouvir dizer “porque não têm mais nada para fazer”, “porque não são capazes de se responsabilizar”... Acho que é uma forma simplista mas fácil de nos colocar a todos uns contra os outros. Médicos e enfermeiros contra utentes porque desperdiçam recursos disparatadamente e à custa de desgaste físico e emocional, utentes contra médicos e enfermeiros porque querem estar de urgência, ganhar o seu dinheiro, e não fazer nenhum. E isto só serve a quem manda, e tem poder de decisão. Porque assim tem o poder de decidir continuar a não fazer nada para resolver a situação. Enquanto estivermos entretidos a espingardar uns contra os outros (e nenhum de nós manda nisto), há quem continue a cantarolar e a assobiar para o lado descontraidamente.

Então, e se essas três razões são as principais para que pais e crianças continuem a ocupar assentos numa sala de espera de uma urgência hospitalar, como melhorar a situação? Ora eu cá tenho algumas ideias. Inconvenientes, talvez.

- Não há alternativa: esta parece-me bastante linear. Dar alternativa. Mas isto não significa sobrecarregar os colegas dos cuidados de saúde primários, que serão a primeira linha junto das famílias, com horários para além do seu. Significa investir em dar mais condições, de recursos humanos e equipamentos, aos Centros de Saúde. Ter mais médicos de família, com menos utentes por lista, de forma a conseguir encaixar situações menos graves para além de consultas de rotina. E dar-lhes as condições em termos de equipamento, há Centros de Saúde que nem saturímetros têm, ou otoscópios em condições! E na dúvida de se uma criança tem o oxigénio baixo, o que podem eles fazer? Enviar para o hospital. E com razão.

- Acreditar que serão melhor orientados pelos médicos num serviço hospitalar: no caso da pediatria, as urgências hospitalares estarão sempre apoiadas por um ou mais pediatras (dependendo do tipo de hospital), e depois colegas de medicina geral e familiar, e colegas em formação (internato). A possibilidade de ter um serviço em porta aberta onde se é consultado por um pediatra, um médico especialista na saúde e doença da criança, não é desprezível. Mas todos os colegas, em formação ou já especialistas, têm formação para ver crianças. Nos cuidados de saúde primários ou nas urgências hospitalares. Se podemos discutir a qualidade da formação? Podemos e devemos, nas instâncias próprias para isso, é fundamental. Mas é isso mesmo, devem ser discutidas no sítio adequado para tal.

- Falhar na perceção de doença grave: este é o ponto em que eu acho que todos precisamos de mais ajuda. Precisamos de aumentar a nossa educação no que diz respeito às situações de doença mais frequentes (febre, constipações, gastroenterites...), porque muitas delas apenas necessitam de cuidados de suporte que podem ser prestados pelos cuidadores em casa, sem sequer terem de se dirigir a um serviço de saúde. Precisamos de dar resposta à necessidade dos pais relativas a burocracias, como atestados ou baixas para assistência à família, que nestas situações mais simples tratam-se mesmo de burocracias, mas consomem tempo e recursos, que podiam ser melhor canalizados noutra direção. E dar resposta a dúvidas simples, como dosagens de medicação antipirética, tratamento sintomático (lavagem nasal, hidratação oral)… dar suporte. Triando as situações que efetivamente precisam de ser avaliadas por médico.


Não acredito em barrar o acesso das pessoas aos serviços de saúde, taxas moderadoras para falsas urgências, nem em que quem tenha mais poder de compra tenha mais direito à saúde do que que quem tem menos. E nos tempos que se avizinham, claramente o poder de compra vai diminuir, e a situação cada vez mais tem tendência a piorar. Portanto, dizer às pessoas que a porta está fechada sem lhes dar educação para a saúde, sem lhes dar uma alternativa condigna, sem atender às necessidades burocráticas, sem assegurar que efetivamente não nos escapam doenças graves, é prestar um mau cuidado às crianças e adolescentes deste país. É cortar as pernas das famílias. É fazer cada um de nós sentir, a cada dia que passa, que direitos básicos à saúde e à educação são conceitos alienígenas. Portanto, este é o meu desafio. Em vez de pensarmos no que nos separa, tentarmos colocar-nos no papel do outro. Médicos como utentes, utentes como médicos. É mais o que nos deve unir, do que aquilo que nos tenta separar.

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