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O guia essencial das constipações em bebés e crianças pequenas


Olá a todos os pais desse lado que já começaram a batalhar com as intermináveis e inevitáveis constipações dos vossos meninos. Sei que já começaram, pois nas últimas duas semanas a minha caixa de mensagens tem estado cheia com preocupações relativamente a narizes entupidos ou ranhosos, febres, tosses, espirros, e afins. E todos os anos, por volta desta altura, o filme repete-se, os atores é que são outros! Isto porque estamos na estação do ano em que os vírus respiratórios (os desgraçados a causar esta confusão toda!) são mais prevalentes, e têm mais facilidade em transmitir-se de criança para criança (principalmente naquelas que frequentam a creche!).


Por isso, cá estou eu, qual salvadora de capa posta e saber à vossa disposição (antes trocava por uma varinha mágica daquelas que funcionam, conhecem alguma?), para vos tentar dar algumas dicas de como lidar com estas constipações, e de quando procurarem ajuda. Relembro que este artigo é uma forma de ajuda muito geral, e que de forma nenhuma deve substituir o conselho dos vossos médicos assistentes, que melhor conhecem a vossa família, e os vossos rebentos.


Vamos a isso?



1. Então mas afinal o que são constipações?

As constipações são infeções respiratórias das vias superiores causadas por vírus respiratórios. Na sua esmagadora maioria (exceto no caso de bebés muito muito pequenos, ou crianças com algum problema de saúde) são doenças ligeiras, e podem ser causadas por uma variedade quase infindável de vírus. Tipicamente manifestam-se com um ou vários dos seguintes sintomas:

- nariz entupido, ou com ranho;

- espirros;

- tosse;

- dor de garganta;

- febre;

Estas manifestações duram habitualmente alguns dias, e embora sejam evidentemente desconfortáveis para a criança, geralmente não têm gravidade clínica. E apesar da obstrução nasal melhorar em poucos dias, normalmente, a tosse por vezes dura uma ou duas semanas, mesmo depois do episódio agudo. Qualquer um dos sintomas acima acaba por poder interferir quer com o sono quer com a alimentação da criança, e por isso muitas vezes são fonte de preocupação, mas a verdade é que são situações autolimitadas, em que nada mais podemos fazer do que ajudar ao conforto da criança, vigiar sinais de agravamento, e ter paciência. Muita dose desta última, de facto. Até porque, tal como muitos pais acabam por dizer, quando os sintomas de uma estão a melhorar, surgem logo novamente mais sintomas, por outra infeção respiratória. Doentes semana sim, semana não... parece-vos familiar?



2. Porque é que as constipações são tão frequentes em bebés e crianças pequenas?

Ah, esta é que é a questão. Existem vários fatores que tornam os nossos pequenos mais suscetíveis a estas infeções, particularmente quando frequentam infantários. Vamos ver porquê:

- Sistema imunitário em desenvolvimento – nos primeiros meses de vida, o sistema imunitário dos bebés ainda está em amadurecimento, o que os torna mais sensíveis a este tipo de infeções;

- Proximidade e número de contactos – as crianças que frequentam o infantário encontram-se mais próximas de outras crianças, partilhando objetos e muitas vezes espaços mais fechados, o que facilita o contágio dos vírus (e não só dos respiratórios...);

- Fase de exploração – quem não sabe que os bebés levam tudo, mas mesmo TUDO, para a boca? Pois é, costumamos dizer que é bom para a imunidade, mas a verdade é que facilita a entrada de vírus respiratórios! E, lamento dizer, o conceito de lavagem de mãos para bebés e crianças pequenas é totalmente desconhecido.



3. O que posso fazer para ajudar o meu bebé, caso ele se constipe?

Lembram-se quando eu disse, lá em cima, que as constipações são autolimitadas? Pois é, são mesmo, o que significa que não há maneira nenhuma de vocês as fazerem ir embora mais rápido. O vírus desaparece quando decide desaparecer, e a única coisa que vocês podem fazer (e não se iludam, este pouco a fazer é mesmo muito) é ajudar a vossa criança a ultrapassar o melhor possível esses dias. Então vamos ver algumas coisas que ajudam:

- lavagem nasal – a lavagem nasal no bebé e criança pequena tem um efeito de limpeza mecânico, ou seja, vai ajudar a mover aquelas secreções que estão a entupir o nariz e alojadas na garganta, e que dificultam a respiração e por vezes a alimentação, e que causam tosse. A lavagem nasal pode ser feita as vezes necessárias (o limite é o bom senso, ok?), e pode ser útil antes das refeições e do sono, para facilitar ambos. Pode ser feita usando soro fisiológico com seringa e adaptador ou com irrigador. Alguns pais têm mais facilidade em fazer com os sprays de água do mar. A melhor forma e a mais eficaz é aquela que vocês conseguirem fazer melhor;

- ajudar a criança a manter-se hidratada – isto faz com que as secreções possam ser mais fluidas, e fáceis de lidar para o bebé;

- humidificação do ar – já “os antigos” falavam dos vapores para ajudar nas constipações... e tinham alguma razão. Brincar com o bebé na casa de banho, enquanto está o vapor da água no ambiente, ou com ele na banheira, pode ajudar também a fluidificar as secreções. Atenção, contudo, a questões de segurança: não se esqueçam de evitar o contacto com a água muito quente, de nunca deixar o bebé sozinho neste ambiente, e ainda de que não estão de forma nenhuma recomendadas substâncias como por exemplo o eucalipto para fazer vapores, pois podem causar reações alérgicas muito graves;

- atenção à administração/aplicação de substâncias de venda livre – muitos pais desejam o “xarope milagroso” que vai fazer passar a tosse. Ora, a tosse é um mecanismo de defesa, que impede a acumulação de secreções no pulmão. Nunca estão recomendados xaropes abaixo dos 12 meses, e raramente o fazemos mesmo acima desta idade, apenas em situações muito específicas. Por isso, não administrem nada deste género sem primeiro falar com o vosso médico assistente, certo? E isso também vale para substâncias de venda livre como descongestionantes nasais. A maioria apenas está aprovada acima dos 6 anos de idade, e abaixo disso, é recomendável que falem com o médico, pois podem ter efeitos secundários importantes;

- administrar antipirético no caso de febre – não me canso, e nunca me cansarei de dizer que a febre não é a doença. É apenas um sintoma, e muitas vezes acompanha estas infeções respiratórias nas crianças mais pequenas, ao contrário do que acontece nos adultos. Em si, não é um sinal de alarme. O nosso objetivo não é descer a febre a qualquer custo, é simplesmente deixar a criança mais confortável caso esta subida da temperatura lhe cause desconforto. Por isso, pode ser necessário administrar paracetamol, ou ibuprofeno, ou até alternar (quando absolutamente necessário), até a criança melhorar.



4. Quando devo procurar ajuda?

Ora aqui é que reside o verdadeiro problema. Apesar de as constipações causarem por vezes desconforto considerável, prejudicarem o sono e a alimentação quando na sua fase mais sintomática (quase nenhuma criança dorme ou come bem com nariz entupido, ou com tosse – faz sentido, não faz?), raramente são motivo de preocupação médica. Vou tentar aqui identificar alguns sinais que devem motivar uma avaliação médica:

- febre elevada e difícil de ceder – febres muito elevadas, e principalmente que não cedam ao antipirético, devem ser avaliadas por médico;

- tosse persistente ou pieira – acessos de tosse muito prolongados (particularmente em crianças muito pequenas) ou pieira audível devem motivar uma avaliação;

- dificuldade respiratória – respiração acelerada (atenção que a febre, por si só, pode aumentar a frequência respiratória, e por isso tem de se ter isso em conta), tiragem (aquele movimento do espaço entre as costelas na respiração), adejo nasal (as narinas abrirem com os movimentos respiratórios), ou lábios arroxeados, são sempre sinais a motivarem avaliação;

- dor de ouvido – uma das complicações mais frequentes das constipações é a otite, por isso queixas de dor de ouvido, principalmente quando mantidas e severas, devem ser avaliadas.


Depois existem sempre outros fatores a ter em conta – se a criança tem mau ar, se recusa a alimentação por completo, se os sintomas já se prolongam há muito tempo e não há melhoria... em medicina não há sempre, nem nunca. Não há absolutos. Antes tivéssemos uma bola de cristal que nos tranquilizasse e mostrasse a evolução.

A esmagadora maioria das constipações são isso mesmo, simplesmente constipações, chatas como tudo, mas nada de especial. Apenas a nossa vigilância, e conhecimento do bebé e criança, permite identificar situações que já não serão constipações, mas outras doenças que começam da mesma maneira por vezes, mas são diferentes.

É sempre tranquilizador terem alguém a quem colocar as vossas dúvidas, e evitarem recorrer neste tipo de situações a urgências hospitalares sem indicação para tal (sem falarem com o vosso médico, ou contactarem a linha sns24), pois para além de sobrecarregarem os serviços que se destinam a doentes urgentes, podem expor o vosso bebé ou criança a “bichos” muito piores.


Dito isto, desejo-vos muita, mas muita força para atravessar este outono, inverno, e primavera que aí vêm. Vamos ser positivos. O verão está quase quase aí!

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