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Parem de arranjar defeitos às crianças!


Devo avisar-vos que já comecei e recomecei a escrever este post por diversas vezes, dada a dificuldade que tenho em me expressar sobre este tema pelo risco de “pisar” os calos a alguém. E eu considero-me, em norma, alguém muito conciliador e até tento manter a minha mente aberta para outros pontos de vista, mas há coisas que não posso ignorar. Encontro-me a meio da leitura de um livro bastante enriquecedor do ponto de vista de compreensão do comportamento humano, e há lá uma grande verdade, é que assumir a responsabilidade do que se diz obriga a necessariamente não agradar simultaneamente a gregos e a troianos. Portanto, leitor, prossiga por sua própria conta e risco, mas considere-se avisado que, caso pertença a essa “nova” classe de pessoas que só teimam em ver defeitos nas crianças, pode não gostar do que vai ler. Mas, por outro lado, até pode acontecer que não se reconheça neste retrato (há por vezes a tendência a uma megalomania pouco humilde nesta situação de arautos da desgraça).

Nas últimas semanas fui brindada no decurso das consultas que fiz, de rotina de saúde infantil, por um desafio colocado logo ao início da consulta. Tratava-se de uma bebé que eu tinha visto pela última vez aos 2 meses de idade, e que retornava agora com 7 meses de idade, e em que eu cumprimentei a mãe com o circunstancial e sempre aplicável “então, tem estado tudo bem?”. Já tive todo o tipo de respostas a esta questão de abertura, mas confesso que esta foi a primeira. “Ó Dra., não lhe vou dizer nada, e a Dra. vai-me dizer se acha a minha menina normal”. Pronto. Estava dado o mote. Podia dizer que senti logo ali a pressão, mas o que é facto é que não foi assim, mas sim olhei para a mãe, olhei para a bebé, e depois novamente para a mãe, e respondi “Ok. Eu até gosto de desafios.” E este desafio começava bem, porque naqueles segundos em que eu tinha olhado para a criança, ela brindara-me com o que eu chamo de “um mega hiper gigante” sorriso, daqueles que só os bebés claramente “anormais” com 7 meses de idade são capazes de fazer. Estava dada a primeira prova de pelo menos um defeito. Sentir simpatia por automática por mim sem eu lhe ter feito um cucu claramente dava mostras de um fraco entendimento da profissão de um pediatra. 1-0 ganho eu, bebé.

Vou poupar-vos aos detalhes da minha consulta de pediatria, certamente aborrecidos, mas devo dizer-vos que a virei todinha. E no final, fiquei apenas contigo, bebé, no mesmo ponto onde tinha partido. Mas até na simpatia que me mostraste, estou segura que por volta dos 9-10 meses, que é quando a nível do desenvolvimento psicomotor se desenvolve o receio em relação ao estranho, se vai resolver por si própria sem a necessidade de eu fazer nada para isso acontecer. Só precisas de te desenvolver naturalmente. Posso, contudo, propor mais umas sessões terapêuticas comigo, em regime semanal, e atribuir ao teu desenvolvimento normal uma prova do meu sucesso enquanto pediatra. Mas não o vou fazer. E sabes, bebé, porque é que não vou fazer isso? Vou confessar-te uma coisa, aqui que ninguém nos ouve. Eu não gosto muito de filmes de super-heróis (deixo isso ao cuidado do meu filho mais velho), mas recordo-me de uma frase no primeiro homem aranha que vi, quando o tio do Peter Parker estava a morrer na rua na sequência de um assalto que correu mal, e o Peter Parker, que recentemente tinha descoberto que tinha afinal “super poderes”, ouve as últimas palavras da sua boca, que são: “With great power, comes great responsability”. Ou seja, com um grande poder, vem uma grande responsabilidade. Para mim, isso significa que temos que assumir a responsabilidade por aquilo que dizemos. Dizer a uns pais que o seu bebé tem um problema, e esse problema precisa de um tratamento, principalmente quando esse tratamento é feito por nós, é uma grande responsabilidade. E para todos vós que me estejam a ler, o que eu disse aquela mãe foi simplesmente “não encontro nada de especial na sua bebé, para além de ser um bebé normal”. Não posso assumir a responsabilidade pelo que lhe disseram anteriormente, e que fez justificar a realização de terapias 2x por semana, que levaram a um gasto semanal de cerca de 80 euros, que a mãe me disse ter impedido (pela carga financeira) que ela comprasse uma vacina extraprograma que eu lhe recomendei. Uma vacina extraprograma que pode prevenir uma morte por meningite. Com provas dadas. Quem é que assume a responsabilidade desta decisão? Serão os pais, certamente a acreditar que fazem os possíveis e impossíveis por dar o melhor aos seus filhos? Será a pessoa que, sem ser médico, identificou um problema sem se preocupar com uma eventual referenciação a um especialista do desenvolvimento, para efetivamente haver um diagnóstico a suportar uma intervenção que “por acaso” passava por sessões realizadas por si próprio com uma carga financeira brutal? Há que pôr a mão na consciência. O que se diz aos pais tem impacto. Fazer um diagnóstico médico é uma competência MÉDICA. Eu posso não ser a pediatra mais competente em termos de desenvolvimento, mas certamente sei reconhecer os meus limites, e encaminhar se necessário para quem percebe mais do que eu.

Portanto, fiz a única coisa que podia fazer. Assumi a responsabilidade. Não sei como estava aos 3 meses de idade, porque não a vi nessa altura, mas agora assumo a responsabilidade, já que não havia fim à vista para estas terapias. A sua bebé tem um desenvolvimento normal, adequado aos seus 7 meses. E voltei a prescrever a receita da vacina antimeningocócica A,C,W,Y.

Portanto, parem de arranjar defeitos às crianças. Os defeitos que lhes acham podem ter consequências muito graves na vida de toda uma família.

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