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“Sempre” mãe, com um “nunca” no regaço


Esta não é apenas uma história entre as demais histórias. É a história de uma dor imensurável que muitas vezes pode ter um ponto físico inicial bem definido, mas que rapidamente atinge todos os poros do corpo. Quase como se se em água se encontrasse, a dor seria um peso atado ao tornozelo a puxar no sentido descendente, a descer, descer, descer até onde o frio e o silêncio pudessem acalmar o grito surdo de uma alma.

Hoje vou falar-vos não de uma, mas de duas histórias de perda. Perdas gestacionais, que por mim passaram. Apesar de em alturas muito distintas da sua gravidez, partilham o mesmo final vazio. E estas mães, que o começaram a ser, prosseguem a sê-lo sem o produto final da felicidade nos seus braços. E será que se consegue imaginar coisa mais terrível que esta, uma “sempre” mãe, com um “nunca” no regaço?

A minha primeira história para vocês é da Ana. A Ana chegou à Urgência Pediátrica num dia como outro qualquer, acompanhada pelo namorado. Com os seus “poucos” 16 anos, ela e o namorado entraram felizes no gabinete, de mãos dadas, com a Ana a dizer que tinha feito um teste de gravidez no exterior nessa manhã, que dera positivo. Que ela e o pai (o Paulo), estavam muito contentes, e apenas queriam confirmar que estava tudo bem com o bebé. Caríssimos leitores, a Urgência Pediátrica não é o sítio adequado para desenvolver um jogo de metáforas com quem se nos apresenta, mesmo que muitas delas cruzem a nossa mente nessa altura. Interessava à Ana e ao Paulo apenas a sua própria metáfora, de dois pais a caminharem felizes com um bebé nos braços, porque se amavam. Importava apenas que a Ana estava grávida, e como tal, foi encaminhada para “a porta ao lado”, que é a da obstetrícia, onde “os sonhos acontecem”. Não mais vi a Ana e o Paulo nesse dia, mas voltei a vê-los cerca de 3 semanas mais tarde. A colega de serviço na obstetrícia chamou-me porque “eu sou boa com adolescentes”. Na realidade penso que isto só quer dizer que consigo falar com eles, e espero também que ouvi-los, o que nem sempre é fácil.

Encontrei novamente a Ana e o Paulo de mãos dadas, mas desta vez a Ana chorava. Tinham perdido o seu bebé. Já tinham feito todos os planos, estavam a morar em casa dos pais do Paulo, a Ana ia voltar a estudar com a ajuda de todos quando o bebé nascesse... e de repente, tudo se desfez. E de seguida fica um exemplo de frases-sofrimento para a Ana ouvir:

- Não te preocupes, és muito nova, ainda vais ter tempo para ter muitos outros mais! (Ana – mas eu queria este, este era o MEU filho).

- Com a tua idade, olha, dá graças por teres abortado, ia estragar-te a vida toda! (Ana – mas eu estava preparada para ele, sei que seria capaz e tinha à minha volta pessoas que me iam ajudar).

- Deixa lá, foi pelo melhor. A natureza sabe o que faz, se esse bebé não era suposto nascer se calhar tinha algum problema. (Ana – não somos todos perfeitos. Mas eu gostava de ter tido a oportunidade de tentar).

Como essas, tantas outras... frases que “vêm por bem”, mas que não reconhecem o papel que aquele filho já começou a ter e terá sempre junto dos seus pais. Já foi imaginado ao colo... já foi imaginado a pegar na mama a primeira vez... já foi imaginado a dormir tranquilo, enquanto pai e mãe olham e velam por ele. Este filho teve um futuro de amor, roubado pelo presente. Mas a sua presença não pode ser negada, e o luto pela sua perda é essencial para continuar o caminho. Até mesmo o contrário, quando são os pais que negam este luto (pela dor, pela incompreensão da perda, por simplesmente não ser a altura certa), ele tem sempre maneira de os alcançar, mais tarde ou mais cedo. E não há nada pior para o luto do que a não concretização da perda.

Em Portugal, em casos de morte fetal (abaixo das 22 semanas) não há lugar à emissão de certificado de óbito, ou a possibilidade de funeral. É, para alguns, a negação completa de um ser já amado, uma contradição para a qual a mente humana não está preparada. Quase como se todo o percurso até lá tivesse simplesmente sido fruto da imaginação, e a morte o final estranho desta confabulação a um, a dois, ou ainda a mais pessoas.

A segunda perda testemunhei-a quando me encontrava a trabalhar numa maternidade central. Era habitual, no início do turno de trabalho, passarmos a visita às salas de parto. E naquele dia, apesar de cheias de senhoras, a sala estava anormalmente calma. Nem o barulho de alguma máquina se ouvia, o que era fora do normal. O colega foi então apresentando os casos um a um, e de repente fez uma breve pausa, e depois acrescentou “Na sala 8 (esta era a sala mais afastada de todas as outras) está uma grávida com uma morte fetal de 38 semanas”. Esta grávida tinha entrado no dia anterior na urgência porque tinha deixado de sentir o seu bebé, e os piores receios de todos confirmaram-se. O bebé estava já sem vida na barriga da mãe. Eu nessa altura ainda não tinha passado pela experiência da gravidez, mas ainda assim gerar uma criança no ventre, amá-la dia a dia cada vez mais, vê-la periodicamente no ecrã de uma qualquer ecografia, senti-la todos os dias em si, comprar a primeira roupa do recém-nascido, imaginar o momento (já tão perto, neste caso!) em que se terá o bebé nos braços... e num minuto, ser-nos roubado tudo isto. Tenho dificuldade em imaginar coisa mais cruel. E depois, ter ainda de passar pelo parto, antecipado como um momento de felicidade, mas neste caso em cada contração a memória dolorosa do que não se vai ter... faltam-me as palavras. Mas foi isso que aconteceu, naquele dia, naquela maternidade. Uma grávida foi mãe na pior dor certamente da sua vida, física e mental. E durante todo o parto que teve, apesar da anestesia, cada grito ecoava no silêncio da felicidade das outras parturientes. Cada grito era revolta, cada grito era raiva, cada grito era incompreensão, cada grito era saudade, e cada grito era um adeus.

De maneira que há muitas mães por aí que o são sem filhos nos braços. Não os carregam no regaço, mas fazem-no num espaço do seu coração, cada uma à sua maneira, sem que os restantes de nós, que não sabem o que isso é, sequer possam começar a compreender essa dor de uma mãe “fantasma”.

Embora completamente diferentes, e cada uma no seu contexto, é urgente à sociedade retirar estas mães “fantasma” da gaveta dos sonhos perdidos, do armário que as torna invisíveis (é tão conveniente para os restantes serem assim, invisíveis...), e dar-lhes espaço e condições para que vivam a sua tremenda dor da forma como escolherem e como melhor as ajudar a encontrar um pouco de paz. É o mínimo que se pode fazer.

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