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Uma história entre histórias. Vai onde te leva o coração.


Apresento-vos o Pedro. O Pedro era o miúdo de 2 anos mais giro que já se viu, dono de uma cara de reguila imparável. A farta cabeleira de caracóis castanho-dourados, que a mãe ainda não tinha arranjado coragem para mandar cortar, caía-lhe para os olhos quando ele levantava as mãozitas e dizia com ar decidido “Nã qué”, ao mesmo tempo que abanava a cabeça. Começava agora a descobrir o poder das palavras, e tudo era uma oportunidade para experimentar as novas habilidades de criança. O Pedro era, ainda, uma criança muito amada, tal como todas as crianças deviam nascer para ser. O pai e a mãe eram pessoas fortes e saudáveis, e também assim era o Pedro, um miúdo rijo, que poucos dias de doença contava nos seus primeiros dois anos de vida. Foi por isso estranho quando, poucos meses depois do seu segundo aniversário, e talvez semanas depois de uma febre que foi lembrada de ir e vir sem razão, o Pedro começou a deixar de brincar como anteriormente brincava. Se calhar, no início, os próprios pais não se aperceberam da mudança do comportamento do Pedro. Ao invés de correr pelo pátio atrás da velha cadela, ou atravessá-lo vezes sem conta no seu triciclo colorido, o Pedro sentava-se agora no chão da sala, com os seus legos e os seus livros. A mãe e os avós diziam “Está a ficar um homenzinho, o nosso Pedro!”. E os olhos não viam aquilo que ainda não podia ser adivinhado. Mais ou menos pela mesma altura (depois mais tarde já não sabiam precisar), o Pedro começou com uma tosse que teimava em não passar, e uma pieira que nunca lhe tinham ouvido antes. Foram vários os remédios caseiros que tentaram, mas por força de que viam o Pedro a piorar dia após dia, os pais levaram-no ao seu médico, queriam perceber o que se passava com ele. Viram, ansiosos, o médico fazer todo o exame, e a apreensão com que lhes disse que seria melhor o Pedro ser avaliado no hospital. Tinha perdido peso desde a consulta de rotina dos 2 anos, e parecia estar com alguma dificuldade em respirar.

E assim foram, o Pedro e os pais, verdadeiramente de coração nas mãos, até ao hospital. Pouco habituados a estas lides de doença, não foi com grande estranheza que, à medida que o tempo passava e eram feitas mais avaliações e exames, não repararam no semblante cada vez mais carregado que fechava a cara de médico após médico que observava o Pedro. E novamente foi de coração completamente despido, e com toda a inocência que rega a saúde, que os pais finalmente ouviram as duas palavras - “O Pedro está muito doente. O coração dele não está a funcionar bem. Vamos ter de o internar e fazer mais exames para perceber o que se passa com ele”. Cada uma destas palavras ouvida foi como uma bala surda, que não fazia sentido. Tudo ali deixou de fazer sentido.

O Pedro foi internado, e os tais exames foram feitos. E a criança, com uma paciência que a idade parecia desafiar, a todos eles se sujeitou, sem um “ai” que se lhe ouvisse. E mesmo assim doente, o seu sorriso contagiava todos os que dele se abeiravam, enfermeiros, auxiliares, técnicos. E enfim, algum tempo depois, chegou o tal chamado diagnóstico, simultaneamente desejado e temido. O Pedro estava com uma insuficiência cardíaca. Mas “como assim”, perguntavam os pais, “como podia o coração do Pedro começar a falhar ainda antes de quase começar a viver?” Isso acontece aos mais velhos, àqueles que já ultrapassaram as primaveras que a sorte lhes destinou.

Bom, aprenderam então, a verdade é que por algum motivo, ou ao invés por motivo nenhum, algumas infeções por vírus, comuns em crianças, atacam direta ou indiretamente o coração. E também por algum ou por nenhum motivo, esta situação pode resolver-se ou pelo contrário, evoluir (como no caso do Pedro), “destruindo” mais ou menos lentamente o músculo da vida que é o coração.

Estava selado o diagnóstico. Estava ditada a sentença, sem possibilidade de nenhum recurso.

E foi assim que eu conheci o Pedro, e os seus pais. No último dos seus múltiplos internamentos nos Cuidados Intensivos, quando o seu coração cansado finalmente gritou “não mais”. O Pedro, na altura com quase 5 anos, foi um guerreiro. Ao longo de cerca de 2 anos e meio, ele e os pais lutaram contra esse destino que se sabia ser quase certo desde o dia do diagnóstico. Quase tudo lhes foi roubado, nos internamentos que se foram tornando a rotina da sua curta vida. O Pedro não chegou a aprender a ler e a escrever, mas gravou com tinta permanente no coração de todos uma história do mais profundo amor. E naquela última noite, ao lado de uma equipa médica e de enfermagem dilacerada pela impotência de toda a tecnologia, farmacologia e medicina para salvar a vida de uma criança, o Pedro partiu, de mãos dadas com a mãe e com o pai, enfim em paz com uma vida que a sorte não o chegou a deixar viver.

Não vos falo da dor dos pais que perdem um filho, porque felizmente não a conheço, e não a quero sequer conseguir imaginar. Mas falo-vos do que conheço sim, da dor de médicos que perdem doentes, perdem crianças que aprendem a conhecer nos internamentos, e com cada um que vão tendo sucesso, mais confiam no poder da medicina e de tudo o que lhes ensinam na Faculdade. Mas a nós, médicos, ninguém nos ensina a dor da perda, da inevitabilidade de ter de baixar os braços, de aceitar que a morte por vezes não se consegue derrotar. E essa “negação” tem tanto de sublime como de quixotesco, pois é isso que nos motiva para, no dia seguinte, voltar a tentar desafiar todas as dificuldades que se nos atravessam no caminho. Mas isso, é só no dia seguinte. Porque naquele que é o dia presente da morte, temos de nos permitir perdoar-nos por sermos apenas humanos. Perdoar-nos vezes sem conta no hoje, para conseguirmos não desistir de tentar enganar uma morte novamente vezes sem conta amanhã.

Vai onde te leva o coração, em memória do Pedro, em suporte dos seus corajosos pais, e de todos os profissionais médicos e não médicos que hoje perdem vidas, as choram muitas vezes em silêncio, e continuam a trabalhar amanhã.

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