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A nova dança mortal entre bactérias e vírus antigos


Parece que quando finalmente os nossos pés voltam a pisar terreno firme, depois de muitos e muitos meses a “bailar” numa contradança com uma pandemia, eis que surgem notícias a dar conhecimento de casos fatais de outros vírus, e até bactérias.

Diremos nós – será que este medo e incerteza não nos vai abandonar tão cedo? A nossa confiança ficou sem dúvida abalada pela agressividade com que a humanidade foi confrontada durante a pandemia COVID-19. E apesar de termos memórias bastante curtas (o que para eventos traumáticos pode ser uma vantagem), alguns dos ensinamentos que esta pandemia nos trouxe deveriam permanecer mais tempo, a bem da nossa sobrevivência.


De seguida trago-vos alguma informação sobre dois agentes que as notícias têm trazido para as nossas casas. Gostava que percebessem exatamente em que medida é que já não são, de forma nenhuma, agentes novos, e o que poderá estar em causa para o referido aumento de casos, ou maior gravidade das infeções, nomeadamente, o facto de uma das infeções poder contribuir para o aumento da gravidade da outra.


Vírus Sincicial Respiratório (VSR, ou RSV, em “Respiratory Syncytial Virus)


Este é um vírus já por nós conhecido há muitos anos, que causa doença em todas as idades, e cujas manifestações dependem da idade, estado de saúde, e do facto de se tratar de uma infeção primária (a primeira vez que contactamos com o vírus) ou secundária (em que já contactámos previamente). É um vírus que habitualmente causa mais doença, na nossa zona, entre outubro e maio, com pico em janeiro e fevereiro. Durante a pandemia COVID-19, devido aos isolamentos impostos e às medidas de contenção da infeção, observou-se um decréscimo marcado das infeções, que estão agora a surgir mesmo fora da altura mais tradicional.

Podemos dizer que virtualmente todas as crianças até aos 2 anos já contactaram com a infeção, e a reinfeção é extremamente comum. É um vírus que, particularmente em bebés e crianças mais pequenas e/ou com algum problema de saúde, causa morbilidade e mortalidade significativas.

A transmissão deste vírus faz-se maioritariamente por contacto direito com secreções ou objetos contendo secreções de indivíduos infetados. É um vírus que sobrevive largas horas em superfícies, e em que é extremamente importante a lavagem das mãos e das superfícies para prevenir a infeção.


Então e que sintomas podemos esperar numa infeção por VSR?

Em bebés e crianças mais pequenas as manifestações mais habituais são a pneumonia e a bronquiolite. Uma forma de manifestação que pode acontecer particularmente em bebés mais pequenos é a apneia, ou seja, o bebé deixa de respirar durante alguns segundos (que podem ser suficientes para causar lesões importantes). É neste grupo, de bebés e crianças mais pequenas, que as manifestações são mais graves, e em que ocorrem as hospitalizações e as mortes.

Em crianças mais velhas, a infeção por VSR pode apenas manifestar-se como uma constipação simples.

Não existe tratamento específico para este vírus, embora algumas crianças de risco tenham indicação para fazer um tratamento profilático à base de um anticorpo monoclonal (que se chama palivizumab), para tentar impedir formas graves de doença. Atualmente encontram-se a ser desenvolvidos (e prestes a ser comercializados, em alguns casos) novos produtos e medicamentos para ajudar a combater esta infeção, quer seja através de vacinas, ou de outros anticorpos monoclonais, direcionados para a proteção de todas as crianças. Será, sem dúvida, um avanço importante, pois a maioria das crianças que acaba por ser internada com esta infeção é previamente saudável.


Para vos ilustrar que a minha experiência com este vírus é bastante pessoal, posso dizer-vos que este “bicho” foi o primeiro que me levou a ficar internada com um dos meus filhos na Pediatria. Tinha o meu mais novo praticamente 9 meses quando o levamos à urgência por ter dificuldade respiratória e febre elevada. Ficámos na Enfermaria de Pediatria praticamente uma semana, a fazer oxigénio, soro, corticoide, antibioterapia, broncodilatadores... tudo aquilo que havia à mão, e em que sabemos que pouco disto contribui efetivamente para a resolução do quadro. Foram dos piores dias de que tenho memória, da impotência de ver um filho doente, de saber a gravidade da doença, e de saber que não há mais nada a fazer senão esperar. E confiar. Felizmente deixámos a doença para trás. Sem sequelas. Mas foram dias muito duros, por isso, eu tenho muito medo e muito respeito por este VSR.


Estreptococo do grupo A (SGA)


Desde setembro de 2022, que um grupo de países europeus relatou um aumento de doença invasiva causada por uma bactéria em particular, que é o estreptococo do grupo A (Irlanda, França, Países Baixos, Suécia e Reino Unido). Foram mesmo relatadas algumas mortes associadas à infeção a SGA. Esta bactéria também é nossa conhecida de longa data, e é a causa mais frequente de amigdalite bacteriana em crianças em idade escolar. A infeção por SGA pode ainda manifestar-se sobre uma forma cutânea, a escarlatina. O pico da infeção geralmente ocorre no inverno e na primavera precoce. O que se passou durante a pandemia COVID-19 é que, tal como aconteceu para o VSR, houve uma diminuição dos casos de infeção a SGA. E o que se propõe para explicar este aumento de doença invasiva é que, de certa forma, a coinfecção por outros vírus respiratórios (como o vírus da gripe, e o VSR) tenha contribuído para aumentar os casos de doença mais grave de infeção por outras bactérias, nomeadamente este estreptococo do grupo A. Afinal, lutar contra dois agentes ao mesmo tempo é mais duro do que apenas um, certo? E então de que tipo de doença invasiva é que estamos a falar, no caso da infeção SGA? Estamos a falar de pneumonia, infeção do sangue (ou bacteriémia), infeção da pele (celulite, fasceíte) e infeção do osso/articulação (osteomielite e artrite).

De notar que a investigação sobre este aumento de casos está em curso, mas não parece estar relacionado com o surgimento de uma “nova bactéria” ou de resistência à antibioterapia geralmente utilizada para tratamento.

Novamente aqui temos de manter a vigilância de casos (e relação com o aumento dos vírus respiratórios em circulação), ter um grande nível de suspeição para a deteção da infeção por SGA e tratar precocemente, para evitar a transmissão.


Espero ter-vos deixado com mais alguma informação sobre estes agentes, e se possível, que vos passem ao largo, que aqui em casa já tivemos a experiência!


Bibliografia


1- Increase in Invasive Group A streptococcal infections among children in Europe, including fatalities . ECDC, press release 12 Dec 2022

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