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Alergia ou Constipação? O Guia do “Espirro” de Abril para Pais

Caríssimos leitores,


Abril em Portugal é um mês de contrastes. Se por um lado o sol (que este ano tem sido muito envergonhado) já nos convida a tirar as camisolas quentes e a correr para os parques, por outro, o meu consultório começa a encher-se de caixas de lenços de papel e olhos vermelhos.

Nesta fase do ano, uma das perguntas que mais ouço é: "Doutora, será que ele está outra vez constipado ou isto são alergias?".

A dúvida é mais do que legítima, porque os sintomas parecem por vezes gémeos verdadeiros. No entanto, para nós, pediatras, felizmente existem "pistas" que nos ajudam a separar as águas. Vamos explorar este guia completo para que também enquanto pai ou mãe saiba exatamente o que fazer quando o seu filho começar com o "atchim" da praxe.


🧬 Pista nº 1: O "Livro de Família" e a Idade


Antes de olharmos para o nariz, olhamos para a história da criança. Na pediatria, o contexto é algumas vezes a chave que nos ajuda a perceber tudo o resto.


1. A Herança Genética: As alergias têm uma componente hereditária importante. Se o pai tem asma, a mãe sofre de rinite alérgica sazonal ou se há irmãos com dermatite atópica, o "terreno" da criança é, por natureza, mais reativo. Se o vosso filho já ele próprio teve Eczema Atópico (aquela pele seca e descamativa, que por vezes faz lesões) ou tem uma asma, ele já nos deu um sinal de que o seu sistema imunitário é mais reativo a agentes externos.

2. A Regra dos 2 Anos: Esta é uma informação que costuma tranquilizar muitos pais de bebés pequenos: é muito raro haver alergias respiratórias antes dos 2 anos de idade, e mesmo antes dos 3 anos, não é assim tão frequente. Porquê? Porque para o corpo se tornar alérgico a algo (como o pólen ou os ácaros), ele precisa de ser exposto a esse agente várias vezes (as alergias alimentares são exceção a esta regra). É o que chamamos de "sensibilização". Um bebé de 12 meses ainda não viveu primaveras suficientes para o seu corpo montar uma resposta alérgica tão estruturada. Portanto, se o seu bebé de meses está a pingar do nariz em abril, 99% das vezes é mesmo um vírus que ele fez o favor de trazer da creche.


📊 Tabela Comparativa: O que os diferencia?


Sintoma

Constipação (Vírus)

Alergia Sazonal

Febre

Pode surgir (baixa ou moderada)

Nunca ocorre

Comichão

Rara

Sintoma predominante (Nariz, olhos, garganta)

Espirros

Ocasionais

"Em salva" (5 ou 6 seguidos)

Duração

7 a 10 dias

Semanas (enquanto houver contacto com o alergénio)

Muco Nasal

Começa claro, torna-se espesso/amarelo

Sempre fluido, transparente (tipo água)

Estado Geral

Criança mais "murcha" e sem apetite

Criança ativa, mas irritada pela comichão


🕵️‍♀️ Cenários Práticos: "Qual é o caso do meu filho?"



Para vos ajudar a identificar o que se passa em casa, preparei estes três exemplos típicos que vejo no dia-a-dia:

  • Cenário A (O vírus): O Tiago, de 3 anos, acordou com o nariz entupido e sub-febril (37.9ºC). Nota-se que está mais murchinho, quer colo e não lhe apetece brincar. O muco no nariz começou transparente, mas ao segundo dia já está mais amarelado e espesso.

    • Diagnóstico: É uma Constipação. O corpo está a lutar contra um vírus.

 

  • Cenário B (A Alergia): A Matilde, de 5 anos, está ótima e cheia de energia. No entanto, mal chega ao recreio da escola, que fica mesmo ao lado do pinhal, começa a espirrar sem parar. Esfrega o nariz constantemente (a chamada "saudação alérgica") e os olhos ficam vermelhos e lacrimejantes. Mal chega a casa e toma banho, parece melhorar.

    • Diagnóstico: É uma Alergia Sazonal (Rinite/Conjuntivite alérgica).

 

  • Cenário C (A Mistura): O Gonçalo tem tosse há duas semanas. Não tem febre, o pingo no nariz é ligeiro, mas a tosse piora muito à noite ou quando corre. É um menino que tem antecedentes de eczema.

    • Diagnóstico: Aqui precisamos de avaliar bem. Pode ser uma situação de hiperreatividade brônquica (asma). Requer sempre observação médica.


💊 Como tratar cada situação?


Aqui entramos na parte em que os pais podem realmente fazer a diferença no conforto da criança.


Se for Constipação (Vírus):

Lembrem-se: os vírus tratam-se com tempo, hidratação e muito mimo.

  • Lavagem Nasal: É o tratamento número 1. Com soro fisiológico ou água do mar, as vezes que forem necessárias durante o dia e/ou noite, para evitar que as secreções acumulem e causem desconforto à criança, ou agravamento da tosse.

  • Conforto: Se houver febre ou mal-estar (dor de corpo/garganta), usamos o paracetamol ou o ibuprofeno, nas doses recomendadas para o peso.

  • Hidratação: Oferecer muita água e líquidos ajuda a fluidificar as secreções.


Se for Alergia (Pólenes/Ácaros):


O objetivo aqui é "acalmar" a resposta exagerada do sistema imunitário.

  • Evicção: O melhor tratamento é evitar o que causa a alergia, o que nem sempre é muito fácil. Em dias de muito pólen e vento, evitem idas ao parque nas horas de maior concentração (final da tarde).

  • Lavagem Nasal: Sim, também aqui é bastante útil! Ajuda a remover fisicamente os pólenes e outros alergénios que ficaram aderentes à mucosa do nariz.

  • Medicação (sempre sob orientação): Podemos usar anti-histamínicos (em gotas, xarope ou comprimidos orodispersíveis) para parar a comichão, os espirros, e o malvado pingo no nariz. Em casos mais persistentes, os sprays nasais com corticoides locais são excelentes para ajudar na inflamação, mas devem ser prescritos pelo médico assistente.


✨ Dicas da Pediatra para Sobreviver a Abril


Para terminar, deixo-vos o meu "Kit de Sobrevivência" para este mês:


  1. Banho pós-parque: Se o vosso filho é muito reativo, o banho ao chegar a casa (incluindo lavar o cabelo) é sagrado. Retira os pólenes "espiões" que vêm agarrados à pele e roupa. Se puderem, fazem também a lavagem nasal para remover os alergénios que estão aderentes à mucosa do nariz.

  2. Janelas do carro: Viajem com as janelas fechadas. O ar condicionado dos carros modernos tem filtros de pólen que ajudam muito.

  3. Roupa no estendal: Evitem secar a roupa das crianças no exterior em dias de muito sol e vento. O pólen deposita-se nas fibras e a criança vai "vestir" o alergénio.

  4. Cuidado com a automedicação: Não deem xaropes para a tosse ou outro tipo de medicação sem terem noção do que é que está em causa. Medicamentos que ajudam numa situação, agravam outras. Na dúvida, consultem sempre o vosso médico assistente.


Espero que este guia vos ajude a navegar por este mês de abril com mais segurança. O importante é observar o comportamento do vosso filho: apesar de os vírus causarem mais sintomas a curto prazo, as alergias são mais duradouras e podem perturbar muito o dia-a-dia da criança.


Na dúvida, já sabem: estamos cá para ajudar! 🌸✨




Os conteúdos deste site são da responsabilidade da autora, não devendo substituir o aconselhamento pelo médico assistente.

 
 
 

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