Vitamina D após o 1.º ano: suplementar ou não?
- Alexandra Luz

- 22 de mar.
- 7 min de leitura

A vitamina D é, provavelmente, uma das vitaminas que mais dúvidas tem gerado nos últimos tempos na Pediatria. Até aos 12 meses, a recomendação é clara e consensual, adotada na norma da Direção-Geral da Saúde: 400 UI por dia para todos os lactentes.
Mas a partir do primeiro aniversário, os pais surgem agora com perguntas legítimas:
“Devo continuar?”
“Se o meu filho é saudável, precisa mesmo?”
“E no inverno, quando quase não há sol?”
A evidência existe — mas as recomendações não são todas iguais. Neste artigo, procuro organizar o que sabemos hoje: quem deve ser suplementado, quais as fontes naturais, o que é o raquitismo e qual o melhor esquema de toma.
Volto a salientar que este artigo tem em conta a minha análise dos dados mais recentes, e que a recomendação individual a partir dos 12 meses deve sempre ser articulada com o médico assistente da criança.
Onde vamos buscar a vitamina D?
A vitamina D é uma vitamina bastante “diferente”. Não depende apenas da alimentação — depende sobretudo do sol.
Para facilitar, podemos imaginá-la como uma “fábrica dupla”: uma parte produz-se na pele, com a exposição solar (UVB) e outra parte vem da alimentação.

☀️ A principal fonte: o sol
Quando a pele é exposta à radiação UVB, inicia-se um processo de conversão que leva à formação de vitamina D3. No entanto:
Em grande parte da Europa (acima do paralelo 40º), no inverno a síntese cutânea é praticamente inexistente.
A melanina funciona como um “filtro solar natural”: quanto mais escura a pele, maior o tempo necessário de exposição para a produção de vitamina D.
A roupa extensa e vida maioritariamente indoor reduzem significativamente a produção. Quanto ao protetor solar, existem atualmente estudos que apontam para que não interfira de forma significativa com o processo de produção da vitamina D, portanto, continua a ser inquestionável o seu uso na proteção solar.
Importante de saber: a exposição solar não causa toxicidade por vitamina D, porque o excesso é convertido em metabolitos inativos.

🥚 Fontes alimentares naturais
A verdade é que a origem alimentar da vitamina D tem fontes escassas:
Peixes gordos (salmão, sardinha, cavala)
Óleo de fígado de bacalhau
Gema de ovo
Fígado
Existem ainda alimentos fortificados (leites, bebidas vegetais, cereais), mas as quantidades variam consoante o produto em causa.
Na prática, é difícil atingir as necessidades apenas com a dieta, especialmente em crianças pequenas que não consomem peixe regularmente.
O que é o raquitismo e porque nos preocupa?
A principal razão histórica da suplementação é prevenir o raquitismo nutricional. Novamente, com a suplementação universal, esta forma de raquitismo praticamente desapareceu, o que nos deixa de certa forma “demasiado tranquilos”, pois nunca convivemos nem vimos manifestações desta doença.
O raquitismo é uma doença causada por deficiência grave de vitamina D, que compromete a mineralização óssea numa fase crítica de crescimento.
Podemos imaginá-lo como construir uma casa com tijolos sem cimento suficiente — a estrutura cresce, mas fica frágil.

Manifestações clínicas
Alterações ósseas:
Arqueamento das pernas (genu varo ou valgo)
Alargamento dos pulsos e tornozelos
“Rosário raquítico” (proeminência nas costelas)
Amolecimento do crânio (craniotabes)
Sintomas neuromusculares:
Atraso motor
Fraqueza muscular
Irritabilidade
Convulsões por hipocalcemia (em casos graves)
Outras complicações:
Fraturas com traumatismos mínimos
Problemas dentários (defeitos de esmalte, maior risco de cáries)
Em situações extremas, cardiomiopatia
Felizmente, em países desenvolvidos, o raquitismo é raro — mas continua a surgir em grupos de risco.
Após os 12 meses: o que dizem as sociedades?
Vamos frisar esta parte - existe consenso absoluto para suplementação universal até aos 12 meses.
Depois disso:
Não recomendam suplementação universal:
Associação Espanhola de Pediatria
Estas instituições defendem foco na alimentação equilibrada e exposição solar adequadas.
Recomendam suplementação alargada:
Estas recomendam geralmente 400–600 UI/dia após 1 ano.
O racional de quem recomenda universalmente baseia-se na dificuldade prática em garantir níveis adequados apenas com dieta e sol, e no potencial benefício na prevenção de infeções respiratórias.
Quem não recomenda argumenta que:
Não há benefício robusto em densidade mineral óssea ou fraturas em crianças saudáveis.
Não existem provas consistentes de benefícios extraesqueléticos.
Existe risco de sobredosagem desnecessária.
Toma diária ou semanal?

Até aos 12 meses, a recomendação é também clara: toma diária de 400 UI.
E quanto a esquemas semanais?
Embora tenham sido estudados, as revisões sistemáticas mostram que:
A suplementação semanal em lactentes não demonstrou eficácia consistente.
Esquemas de megadoses (“doses de choque”) podem associar-se a riscos acrescidos.
A evidência atual não suporta a substituição da toma diária por esquemas intermitentes no primeiro ano.
A toma diária tem uma vantagem importante: mantém níveis estáveis e reduz picos.
Após o primeiro ano, algumas orientações admitem estratégias sazonais (por exemplo, apenas no inverno), mas a decisão deve ser individualizada.
Quais são os grupos de risco que devem suplementar após os 12 meses?
Apesar da ausência de consenso para crianças saudáveis, existe acordo praticamente universal:
Há situações em que a suplementação deve ser mantida após o primeiro ano de vida.
Nestes casos, o risco de deficiência é significativamente maior — e a suplementação é recomendada de forma clara. São exemplos as crianças e adolescentes com:
· Pele mais escura
· Baixa exposição solar
· Vida maioritariamente indoor
· Residência em latitudes a norte
· Dietas restritivas (veganismo, APLV, ARFID)
· Doenças com malabsorção
· Doença hepática ou renal
· Medicação crónica com fármacos que interfiram com o metabolismo da vitamina D (ex.: anticonvulsivantes, corticóides)
E quanto às crianças e adolescentes com obesidade?
A obesidade é hoje reconhecida como um fator de risco para défice de vitamina D. Isto porque a vitamina D é uma vitamina lipossolúvel — ou seja, fica “armazenada” no tecido adiposo.
Nas crianças com excesso de massa gorda, ocorre um fenómeno de “sequestro”, em que a vitamina D não só fica menos disponível na circulação como também tem menor biodisponibilidade para os tecidos. O resultado pode ser existirem níveis séricos mais baixos, mesmo com ingestão semelhante às outras crianças.
Além disso, estas crianças tendem frequentemente a ter menor exposição solar (menos atividade ao ar livre) e a apresentar padrões alimentares menos equilibrados.
Várias sociedades científicas, incluindo a Endocrine Society, consideram a obesidade um fator de risco relevante e sugerem que estas crianças podem necessitar de doses superiores às habituais e que devem ser avaliadas de forma individualizada. Apesar deste reconhecimento, a verdade é que não existe uma suplementação universal recomendada para todas as crianças com obesidade, mas sim uma maior atenção individualizada nesta situação.
Risco de sobredosagem: um alerta importante
A toxicidade ocorre quase exclusivamente por erro na suplementação.
Pode causar:
Hipercalcemia
Náuseas e vómitos
Sede excessiva
Formação de cálculos renais
Em casos graves, lesões neurológicas
Por isso:
Mais não significa melhor.
As doses máximas seguras variam com a idade (por exemplo, 2500 UI/dia entre 1–3 anos como limite superior tolerável).
Orientações práticas para pais
✔ Até aos 12 meses: suplementação diária obrigatória.
✔ Após 1 ano: avaliar fatores de risco.
✔ Promover alimentação variada com peixe gordo 1–2x/semana.
✔ Estimular brincadeira ao ar livre de forma segura.
✔ Evitar megadoses ou esquemas sem orientação médica.
✔ Não realizar análises de rotina em crianças saudáveis.
Conclusão
A vitamina D não deve ser encarada como uma moda nem como um vilão. É uma ferramenta preventiva importante — sobretudo no primeiro ano de vida e em grupos de risco.
Após os 12 meses, a decisão depende do contexto individual e da orientação seguida pelo pediatra assistente. A estratégia nestes casos de suplementação adicional que talvez possa trazer o maior benefício com o menor risco será a suplementação sazonal, ou seja, apenas no inverno, e com níveis diários de 400-600 UI.
Mais importante do que suplementar indiscriminadamente é garantir:
Crescimento adequado
Alimentação equilibrada
Vida ativa ao ar livre
Acompanhamento médico regular
Porque, no fundo, a vitamina D é apenas uma peça do puzzle da saúde infantil.
Referências:
Norma 004/2019 Direção-Geral da Saúde - Prevenção e Tratamento da Deficiência em Vitamina D, acessível em https://normas.dgs.min-saude.pt/wp-content/uploads/2019/08/Prevencao-e-tratamento-da-carencia-de-Vit-D_2019.pdf
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