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Deficiência em ferro e anemia por deficiência de ferro: o que mudou nas novas recomendações da Academia Americana de Pediatria?


A deficiência de ferro continua a ser a deficiência nutricional mais frequente em todo o mundo e uma das principais causas de anemia em crianças e adolescentes. No entanto, a ciência mostrou-nos nos últimos anos que o problema começa muito antes da anemia aparecer.

Foi precisamente por reconhecer esta realidade que a Academia Americana de Pediatria (AAP) publicou, em julho de 2026, uma nova guideline sobre o diagnóstico, rastreio e prevenção da deficiência de ferro e da anemia por deficiência de ferro. Estas recomendações substituem a guideline anterior da AAP e refletem uma mudança importante: o objetivo já não é apenas diagnosticar anemia, mas identificar a deficiência de ferro o mais precocemente possível.

Embora estas recomendações representem um importante avanço científico, importa recordar que não substituem a avaliação individual de cada criança ou adolescente pelo seu pediatra ou médico assistente. A decisão de realizar análises, iniciar suplementação ou adotar outras estratégias depende sempre da história clínica, da alimentação, dos fatores de risco e do contexto de cada família.


Porque é que o ferro é tão importante?


O ferro é muito mais do que um componente da hemoglobina.

É indispensável para:

  • transportar oxigénio através do organismo;

  • permitir o crescimento adequado;

  • apoiar o funcionamento do sistema imunitário;

  • participar na produção de energia pelas células;

  • contribuir para o desenvolvimento e funcionamento normal do cérebro.


Durante a infância e a adolescência, períodos marcados por um crescimento muito rápido, as necessidades de ferro aumentam significativamente. É também nesta fase que o cérebro tem o seu maior desenvolvimento, tornando-se particularmente vulnerável à deficiência deste nutriente.

Estudos sugerem que uma deficiência de ferro prolongada durante fases críticas do desenvolvimento pode associar-se a alterações cognitivas, comportamentais e do neurodesenvolvimento que poderão não ser totalmente reversíveis, mesmo após a correção da anemia. É precisamente por este motivo que hoje se procura identificar a deficiência de ferro antes de surgir anemia.


Deficiência em ferro (ferropenia) não é o mesmo que anemia




Este é provavelmente o conceito mais importante das novas recomendações.

Imagine que as reservas de ferro do organismo funcionam como o depósito de combustível de um automóvel.

Quando o depósito começa a esvaziar, o carro continua a circular normalmente durante algum tempo. Apenas quando o combustível se torna insuficiente é que deixa de funcionar.

O organismo comporta-se de forma semelhante.

Inicialmente diminuem apenas as reservas de ferro. Nesta fase:

  • a criança pode sentir-se perfeitamente bem;

  • a hemoglobina pode manter-se normal;

  • o cérebro pode já estar a ser afetado.

Só mais tarde, quando o ferro deixa de ser suficiente para produzir hemoglobina, surge a anemia.


Em termos simples:

  • Ferropenia (deficiência de ferro): reservas de ferro diminuídas, podendo existir hemoglobina normal.

  • Anemia por deficiência de ferro: fase mais avançada, em que já existe diminuição da hemoglobina.

A nova guideline reforça precisamente esta mensagem: esperar pela anemia significa, muitas vezes, chegar já demasiado tarde.


O que mudou nas novas recomendações?


1. O foco deixa de ser apenas a anemia


A grande mudança é conceptual.

Durante muitos anos, a preocupação principal era identificar crianças com anemia.

Hoje sabe-se que a deficiência de ferro pode existir muito antes disso e que também merece ser diagnosticada e tratada quando apropriado.

O objetivo passa, por isso, a ser prevenir a anemia — e não apenas diagnosticá-la.


2. O rastreio passa a ser mais individualizado


Outra alteração importante prende-se com o rastreio.

As recomendações anteriores valorizavam sobretudo o rastreio universal da anemia aos 12 meses.

A nova guideline propõe uma abordagem mais personalizada, baseada na identificação dos fatores de risco de cada criança.

Entre eles destacam-se:

  • prematuridade;

  • baixo peso ao nascer;

  • necessidades aumentadas de ferro durante o primeiro ano de vida;

  • aleitamento materno exclusivo sem suplementação quando indicada;

  • introdução tardia ou insuficiente de alimentos ricos em ferro;

  • consumo excessivo de leite de vaca;

  • alimentação restritiva;

  • doenças inflamatórias crónicas;

  • perdas de sangue;

  • obesidade.

Quanto maior o risco identificado, maior poderá ser a necessidade de investigação laboratorial.


3. A ferritina ganha um papel central


Durante muitos anos, a hemoglobina foi praticamente sinónimo de rastreio da deficiência de ferro.

Hoje sabemos que isso não basta.

A guideline reforça a importância da ferritina sérica, que permite avaliar as reservas de ferro do organismo.

Como a ferritina também aumenta em situações de inflamação ou infeção, poderá ser necessário ser interpretada em conjunto com um marcador inflamatório, como a proteína C reativa (PCR).

Esta abordagem permite identificar crianças com deficiência de ferro mesmo antes do aparecimento da anemia.


4. A alimentação continua a ser a melhor prevenção


Apesar das novidades no diagnóstico, a prevenção continua a começar à mesa.

As recomendações reforçam a importância de:

  • manter o aleitamento materno;

  • suplementar ferro nos lactentes em que isso está recomendado;

  • iniciar atempadamente a alimentação complementar;

  • oferecer regularmente alimentos naturalmente ricos em ferro;

  • associar alimentos ricos em vitamina C para melhorar a absorção;

  • evitar consumo excessivo de leite de vaca após o primeiro ano de vida.

Importa recordar que o leite de vaca contém pouco ferro e, quando consumido em grandes quantidades, pode diminuir o apetite para outros alimentos mais ricos neste mineral.


A adolescência merece uma atenção especial


Uma das novidades mais relevantes da guideline é a valorização da adolescência como uma segunda fase crítica para a deficiência de ferro.

Depois dos primeiros anos de vida, é precisamente durante a adolescência que as necessidades de ferro voltam a aumentar de forma marcada.

O rápido crescimento, o aumento da massa muscular, o maior volume sanguíneo e as alterações hormonais fazem com que o organismo necessite de mais ferro.

Nas raparigas, as perdas menstruais representam um fator adicional que aumenta significativamente o risco.


Quais são os adolescentes com maior risco?


A guideline identifica vários grupos que merecem uma vigilância mais próxima:

  • adolescentes com menstruações abundantes;

  • jovens com alimentação vegetariana ou vegan mal planeada;

  • adolescentes que fazem dietas muito restritivas;

  • atletas de competição, sobretudo em modalidades de resistência;

  • adolescentes com doenças gastrointestinais ou inflamatórias crónicas.

Nestes casos, poderá justificar-se uma avaliação laboratorial mesmo na ausência de anemia.


Que sintomas podem surgir?


Nem sempre existem sintomas.

Quando aparecem, são frequentemente inespecíficos:

  • fadiga persistente;

  • dificuldade de concentração;

  • diminuição do rendimento escolar;

  • menor capacidade para o exercício físico;

  • dores de cabeça frequentes;

  • palidez;

  • tonturas.

Como estes sintomas podem ter muitas outras causas, a sua presença deve motivar uma avaliação médica, mas nunca permite fazer o diagnóstico por si só.


Devem todos os adolescentes fazer análises?


Não.

Tal como acontece na infância, a AAP não recomenda análises de rotina para todos os adolescentes saudáveis.

A decisão depende da presença de fatores de risco, sintomas ou doenças associadas.

Mais uma vez, a avaliação individual continua a ser a chave.


A suplementação deve ser feita por iniciativa dos pais?


Não.

Embora alguns grupos beneficiem comprovadamente de suplementação — como determinados prematuros ou alguns lactentes alimentados exclusivamente com leite materno —, a suplementação deve sempre ser orientada pelo médico.

Nem todas as crianças precisam de ferro e o excesso também pode ser prejudicial.

Por esse motivo, não é aconselhável iniciar suplementos apenas porque existe suspeita de défice.


O que muda para os pais?


Na prática, a nova guideline não significa que todas as crianças precisem de fazer mais análises ou tomar suplementos.

Significa, isso sim, que hoje compreendemos melhor quando existe maior risco e que dispomos de estratégias mais eficazes para identificar precocemente a deficiência de ferro.

A mensagem principal é tranquilizadora: uma alimentação equilibrada, adaptada à idade, e o acompanhamento regular pelo pediatra ou médico assistente continuam a ser as melhores ferramentas para prevenir este problema.


Em resumo:

✔️ O cérebro pode ser afetado antes de surgir anemia, razão pela qual a deteção precoce é importante.

✔️ A nova guideline da AAP centra-se na identificação da deficiência de ferro, e não apenas da anemia.

✔️ A hemoglobina isoladamente pode não ser suficiente; a ferritina passou a assumir um papel muito mais relevante na avaliação das reservas de ferro.

✔️ O rastreio deixa de ser uma abordagem “igual para todos” e passa a basear-se nos fatores de risco individuais.

✔️ A adolescência é reconhecida como uma segunda fase crítica, sobretudo nas raparigas com menstruações abundantes, nos atletas e nos adolescentes com dietas restritivas.

✔️ A alimentação continua a ser a principal estratégia de prevenção da deficiência de ferro.

✔️ A suplementação de ferro só deve ser iniciada quando existe indicação médica.

✔️ Não existe uma recomendação única para todas as crianças ou adolescentes. A avaliação individual pelo pediatra ou médico assistente continua a ser essencial.


Referências

  • American Academy of Pediatrics. Diagnosis, Screening, and Prevention of Iron Deficiency and Iron Deficiency Anemia in Children and Adolescents. Pediatrics. 2026.

  • World Health Organization. Use of ferritin concentrations to assess iron status in individuals and populations. Geneva: WHO.

  • ESPGHAN Committee on Nutrition. Recomendações europeias atualmente em vigor sobre prevenção da deficiência de ferro na infância.

 
 
 

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