Deficiência em ferro e anemia por deficiência de ferro: o que mudou nas novas recomendações da Academia Americana de Pediatria?
- Alexandra Luz

- há 4 dias
- 6 min de leitura

A deficiência de ferro continua a ser a deficiência nutricional mais frequente em todo o mundo e uma das principais causas de anemia em crianças e adolescentes. No entanto, a ciência mostrou-nos nos últimos anos que o problema começa muito antes da anemia aparecer.
Foi precisamente por reconhecer esta realidade que a Academia Americana de Pediatria (AAP) publicou, em julho de 2026, uma nova guideline sobre o diagnóstico, rastreio e prevenção da deficiência de ferro e da anemia por deficiência de ferro. Estas recomendações substituem a guideline anterior da AAP e refletem uma mudança importante: o objetivo já não é apenas diagnosticar anemia, mas identificar a deficiência de ferro o mais precocemente possível.
Embora estas recomendações representem um importante avanço científico, importa recordar que não substituem a avaliação individual de cada criança ou adolescente pelo seu pediatra ou médico assistente. A decisão de realizar análises, iniciar suplementação ou adotar outras estratégias depende sempre da história clínica, da alimentação, dos fatores de risco e do contexto de cada família.
Porque é que o ferro é tão importante?
O ferro é muito mais do que um componente da hemoglobina.
É indispensável para:
transportar oxigénio através do organismo;
permitir o crescimento adequado;
apoiar o funcionamento do sistema imunitário;
participar na produção de energia pelas células;
contribuir para o desenvolvimento e funcionamento normal do cérebro.
Durante a infância e a adolescência, períodos marcados por um crescimento muito rápido, as necessidades de ferro aumentam significativamente. É também nesta fase que o cérebro tem o seu maior desenvolvimento, tornando-se particularmente vulnerável à deficiência deste nutriente.
Estudos sugerem que uma deficiência de ferro prolongada durante fases críticas do desenvolvimento pode associar-se a alterações cognitivas, comportamentais e do neurodesenvolvimento que poderão não ser totalmente reversíveis, mesmo após a correção da anemia. É precisamente por este motivo que hoje se procura identificar a deficiência de ferro antes de surgir anemia.
Deficiência em ferro (ferropenia) não é o mesmo que anemia

Este é provavelmente o conceito mais importante das novas recomendações.
Imagine que as reservas de ferro do organismo funcionam como o depósito de combustível de um automóvel.
Quando o depósito começa a esvaziar, o carro continua a circular normalmente durante algum tempo. Apenas quando o combustível se torna insuficiente é que deixa de funcionar.
O organismo comporta-se de forma semelhante.
Inicialmente diminuem apenas as reservas de ferro. Nesta fase:
a criança pode sentir-se perfeitamente bem;
a hemoglobina pode manter-se normal;
o cérebro pode já estar a ser afetado.
Só mais tarde, quando o ferro deixa de ser suficiente para produzir hemoglobina, surge a anemia.
Em termos simples:
Ferropenia (deficiência de ferro): reservas de ferro diminuídas, podendo existir hemoglobina normal.
Anemia por deficiência de ferro: fase mais avançada, em que já existe diminuição da hemoglobina.
A nova guideline reforça precisamente esta mensagem: esperar pela anemia significa, muitas vezes, chegar já demasiado tarde.
O que mudou nas novas recomendações?
1. O foco deixa de ser apenas a anemia
A grande mudança é conceptual.
Durante muitos anos, a preocupação principal era identificar crianças com anemia.
Hoje sabe-se que a deficiência de ferro pode existir muito antes disso e que também merece ser diagnosticada e tratada quando apropriado.
O objetivo passa, por isso, a ser prevenir a anemia — e não apenas diagnosticá-la.
2. O rastreio passa a ser mais individualizado
Outra alteração importante prende-se com o rastreio.
As recomendações anteriores valorizavam sobretudo o rastreio universal da anemia aos 12 meses.
A nova guideline propõe uma abordagem mais personalizada, baseada na identificação dos fatores de risco de cada criança.
Entre eles destacam-se:
prematuridade;
baixo peso ao nascer;
necessidades aumentadas de ferro durante o primeiro ano de vida;
aleitamento materno exclusivo sem suplementação quando indicada;
introdução tardia ou insuficiente de alimentos ricos em ferro;
consumo excessivo de leite de vaca;
alimentação restritiva;
doenças inflamatórias crónicas;
perdas de sangue;
obesidade.
Quanto maior o risco identificado, maior poderá ser a necessidade de investigação laboratorial.
3. A ferritina ganha um papel central

Durante muitos anos, a hemoglobina foi praticamente sinónimo de rastreio da deficiência de ferro.
Hoje sabemos que isso não basta.
A guideline reforça a importância da ferritina sérica, que permite avaliar as reservas de ferro do organismo.
Como a ferritina também aumenta em situações de inflamação ou infeção, poderá ser necessário ser interpretada em conjunto com um marcador inflamatório, como a proteína C reativa (PCR).
Esta abordagem permite identificar crianças com deficiência de ferro mesmo antes do aparecimento da anemia.
4. A alimentação continua a ser a melhor prevenção
Apesar das novidades no diagnóstico, a prevenção continua a começar à mesa.
As recomendações reforçam a importância de:
manter o aleitamento materno;
suplementar ferro nos lactentes em que isso está recomendado;
iniciar atempadamente a alimentação complementar;
oferecer regularmente alimentos naturalmente ricos em ferro;
associar alimentos ricos em vitamina C para melhorar a absorção;
evitar consumo excessivo de leite de vaca após o primeiro ano de vida.
Importa recordar que o leite de vaca contém pouco ferro e, quando consumido em grandes quantidades, pode diminuir o apetite para outros alimentos mais ricos neste mineral.
A adolescência merece uma atenção especial
Uma das novidades mais relevantes da guideline é a valorização da adolescência como uma segunda fase crítica para a deficiência de ferro.
Depois dos primeiros anos de vida, é precisamente durante a adolescência que as necessidades de ferro voltam a aumentar de forma marcada.
O rápido crescimento, o aumento da massa muscular, o maior volume sanguíneo e as alterações hormonais fazem com que o organismo necessite de mais ferro.
Nas raparigas, as perdas menstruais representam um fator adicional que aumenta significativamente o risco.
Quais são os adolescentes com maior risco?
A guideline identifica vários grupos que merecem uma vigilância mais próxima:
adolescentes com menstruações abundantes;
jovens com alimentação vegetariana ou vegan mal planeada;
adolescentes que fazem dietas muito restritivas;
atletas de competição, sobretudo em modalidades de resistência;
adolescentes com doenças gastrointestinais ou inflamatórias crónicas.
Nestes casos, poderá justificar-se uma avaliação laboratorial mesmo na ausência de anemia.
Que sintomas podem surgir?
Nem sempre existem sintomas.
Quando aparecem, são frequentemente inespecíficos:
fadiga persistente;
dificuldade de concentração;
diminuição do rendimento escolar;
menor capacidade para o exercício físico;
dores de cabeça frequentes;
palidez;
tonturas.
Como estes sintomas podem ter muitas outras causas, a sua presença deve motivar uma avaliação médica, mas nunca permite fazer o diagnóstico por si só.
Devem todos os adolescentes fazer análises?
Não.
Tal como acontece na infância, a AAP não recomenda análises de rotina para todos os adolescentes saudáveis.
A decisão depende da presença de fatores de risco, sintomas ou doenças associadas.
Mais uma vez, a avaliação individual continua a ser a chave.
A suplementação deve ser feita por iniciativa dos pais?

Não.
Embora alguns grupos beneficiem comprovadamente de suplementação — como determinados prematuros ou alguns lactentes alimentados exclusivamente com leite materno —, a suplementação deve sempre ser orientada pelo médico.
Nem todas as crianças precisam de ferro e o excesso também pode ser prejudicial.
Por esse motivo, não é aconselhável iniciar suplementos apenas porque existe suspeita de défice.
O que muda para os pais?
Na prática, a nova guideline não significa que todas as crianças precisem de fazer mais análises ou tomar suplementos.
Significa, isso sim, que hoje compreendemos melhor quando existe maior risco e que dispomos de estratégias mais eficazes para identificar precocemente a deficiência de ferro.
A mensagem principal é tranquilizadora: uma alimentação equilibrada, adaptada à idade, e o acompanhamento regular pelo pediatra ou médico assistente continuam a ser as melhores ferramentas para prevenir este problema.
Em resumo:
✔️ O cérebro pode ser afetado antes de surgir anemia, razão pela qual a deteção precoce é importante.
✔️ A nova guideline da AAP centra-se na identificação da deficiência de ferro, e não apenas da anemia.
✔️ A hemoglobina isoladamente pode não ser suficiente; a ferritina passou a assumir um papel muito mais relevante na avaliação das reservas de ferro.
✔️ O rastreio deixa de ser uma abordagem “igual para todos” e passa a basear-se nos fatores de risco individuais.
✔️ A adolescência é reconhecida como uma segunda fase crítica, sobretudo nas raparigas com menstruações abundantes, nos atletas e nos adolescentes com dietas restritivas.
✔️ A alimentação continua a ser a principal estratégia de prevenção da deficiência de ferro.
✔️ A suplementação de ferro só deve ser iniciada quando existe indicação médica.
✔️ Não existe uma recomendação única para todas as crianças ou adolescentes. A avaliação individual pelo pediatra ou médico assistente continua a ser essencial.
Referências
American Academy of Pediatrics. Diagnosis, Screening, and Prevention of Iron Deficiency and Iron Deficiency Anemia in Children and Adolescents. Pediatrics. 2026.
World Health Organization. Use of ferritin concentrations to assess iron status in individuals and populations. Geneva: WHO.
ESPGHAN Committee on Nutrition. Recomendações europeias atualmente em vigor sobre prevenção da deficiência de ferro na infância.




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