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O ABC da Gastrenterite na Criança



Nesta semana que passou, apercebi-me que há muitas dúvidas sobre esta situação frequente na pediatria – a gastrenterite aguda (GEA). Tive a oportunidade de colocar algumas ideias-chave nas redes sociais, e de gravar um vídeo para quem tiver a paciência de assistir (prometo que vale a pena!!), que fica para a posteridade e que podem sempre aceder, quando precisarem. Está mesmo aqui ao lado na página, nos materiais – vídeos.

 

Mas como sei que alguns de vós gostam de ir diretos ao assunto, e preferem ainda as palavras (que sempre vos direi, hehehe), optei por deixar aqui mesmo no blog tudo o que vocês precisam de saber sobre a GEA, nomeadamente como lidar com ela em casa (o que é o indicado para a maioria dos miúdos), e quando devem mesmo procurar ajuda.

 

Vamos pôr as mãos na massa?

 

O que é a GEA?

A GEA é uma situação de natureza infeciosa, em que a característica fundamental é a presença de diarreia - o aumento da frequência das dejeções (aumento do número de vezes que a criança faz cocó), e/ou diminuição da consistência das dejeções. Esta definição é importante, pois muitos pais acreditam que tem de haver sempre dejeções líquidas, mas na realidade só o aumento do número de vezes em que a criança faz cocó em relação ao habitual já não é considerado normal. Por outro lado, num menor número de casos, podem existir apenas vómitos, sem diarreia associada.

É uma das causas mais frequentes de recurso aos cuidados de saúde, e por isso é de extrema importância que saibamos identificar a necessidade deste recurso.

 

Qual a causa mais frequente da GEA?



Na grande maioria dos casos, a GEA é causada por vírus, sendo que destes assumem especial importância o rotavírus e o norovírus, em idade pediátrica. Pela grande frequência e importância deste problema em termos de saúde pública, está disponível inclusivamente uma vacina contra o rotavírus, em vários países. Portugal é um deles, embora o acesso à vacina continue, na maioria dos casos, dependente da compra da mesma por parte dos pais, uma vez que apenas faz parte do Programa Nacional de Vacinação para grupos de risco.

Num menor número de casos, a GEA pode ser causada por bactérias (como a Salmonella, implicada muitas vezes em casos de intoxicação alimentar) ou até parasitas (como a Giardia, que causa a giardíase).

 

Como se transmite a GEA?

Quando falamos de vírus que causam diarreia aguda, a sua forma de transmissão é através do contacto com as fezes, por isso ter muito cuidado com a lavagem das mãos, principalmente após contacto com fraldas de crianças doentes ou higiene da zona da fralda, e após o uso do WC, é fundamental. As crianças pequenas podem contaminar objetos com o contacto com a sua superfície, e alguns vírus que causam sintomas gastrointestinais também se transmitem por gotículas respiratórias, por isso evitar que as crianças que têm diarreia frequentem a creche ou a escola é importante para diminuir a transmissão da doença. Ainda assim, é muito frequente que após a criança iniciar sintomas, também os adultos do agregado familiar apresentem.

No caso das intoxicações alimentares, a transmissão é feita por ingestão de comida contaminada, por isso grande parte das vezes a criança partilha os sintomas com as pessoas que ingeriram a mesma coisa, e os sintomas surgem com pouca diferença de tempo uns em relação aos outros (as crianças podem ter sintomas mais rápido porque são mais pequenas).

 

Quais os sintomas habituais de uma GEA?



Já vimos que a diarreia é o sintoma fundamental, em todos os casos. Outros sintomas frequentes são os vómitos, a dor de barriga, a náusea, e a febre. Os vómitos podem ser esporádicos, ou persistentes. Já a dor de barriga, o mais habitual é ser tipo cólica, ou seja, uma dor que pode ser muito severa mas que depois tem momentos em que alivia. Pode ser de localização difusa, ou mais sobre a região umbilical, embora isto seja muito variável. Quanto à febre, é mais frequente nas crianças mais pequenas, ou então nas causas bacterianas. A infeção a rotavírus também se associa com alguma frequência a febre.

 

Como se trata a GEA?



Geralmente os episódios de GEA, virais ou até mesmo na grande parte dos de causa bacteriana, não têm tratamento específico e são de resolução espontânea. O habitual é que possam resolver em cerca de até 7 a 10 dias. A principal complicação da GEA é a desidratação, pois a criança pode perder demasiados líquidos através da diarreia, e não conseguir hidratar-se, se a isso se juntarem os vómitos. O mais indicado na GEA é oferecer os chamados soros de rehidratação oral (SRO), que são formulações preparadas especificamente para fornecer os eletrólitos que a criança perde pela diarreia. Eu costumo dizer que é como fazer o soro na veia para hidratar, só que por via oral, o que é muito mais cómodo e melhor para a criança. Antigamente os SRO disponíveis no mercado eram péssimos em termos de sabor, e era raro as crianças aceitarem-nos. Atualmente existem várias marcas disponíveis no mercado, com vários sabores aceitáveis, ou até sabor neutro. Algumas marcas combinam ao SRO ainda os probióticos, o que pode ajudar a diminuir a duração da diarreia. Deixo-vos no final do artigo algumas opções de SRO disponíveis no mercado. Quando a criança não aceita os SRO, bom, aí a solução é oferecer os líquidos aos quais está habituada – qualquer líquido é melhor que nenhum líquido – água, leite, infusão, água aromatizada....

Outra coisa a falar é quando existem vómitos, que dificultam a ingestão destes SRO. Podemos tentar oferecer estes soros à colher, lentamente (por exemplo, uma colher a cada 5 minutos), e ir aumentando conforme a tolerância da criança. Oferecê-los frescos também pode ajudar na tolerância, e na aceitação.

 

E em relação à alimentação? É necessário fazer alguma dieta?

É uma ideia muito enraizada na nossa população que “caldos de arroz”, “papa de amido de milho”, ou até cola sem gás, podem ajudar na resolução da diarreia. Tal não é verdade, e pode ainda prejudicar a criança, na medida em que oferecer coisas a que não está habituada (e convenhamos, às vezes horríveis de sabor) vai levar a uma diminuição do que come. Assim que a criança esteja a tolerar, devemos oferecer os alimentos saudáveis a que está habituada, respeitando o seu apetite (mais vale dar menos quantidade, e a criança aceitar, do que dar muito, e depois vomitar). Favorecemos sempre alimentos lácteos, a fruta, e pouca gordura – mas isso é o que fazemos sempre, não é? Reforço aqui que numa diarreia aguda não há qualquer motivo para restringir os alimentos lácteos – muitas vezes são até tudo o que a criança aceita.

 

Quando procurar ajuda?



Tal como eu disse anteriormente, a principal complicação da GEA é a desidratação. Esta é tanto mais provável quanto mais pequena a criança, e principalmente se existirem vómitos associados (que a impedem de restabelecer o equilíbrio). Portanto, estejam atentos – diminuição muito marcada do chichi ou mesmo ausência por longo período, vómitos persistentes que impedem a ingestão de líquidos, irritabilidade ou prostração, sangue nas fezes (atenção que algumas situações de GEA podem dar alguma irritação da mucosa e raios de sangue no cocó, mas na dúvida deve ser considerado um sinal de alarme), febre que não cede ao antipirético, e dor abdominal intensa e persistente, são manifestações que vos devem fazer procurar avaliação médica.

 

E aqui está, o verdadeiro ABC da gastrenterite aguda. Espero que com estas dicas se sintam mais à vontade para enfrentar os desafios das doenças dos vossos pequenos – se bem que a GEA tem o condão de às vezes deixar os pais bem pior do que os próprios filhos, e eu que o diga!


SRO disponíveis no mercado:












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