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Gripe nas crianças: porquê vacinar e que opções existem em 2026/27?

há 6 minutos
8 min de leitura

Tantas e tantas vezes que ouvimos dizer - "A gripe é uma doença benigna nas crianças", ou "a gripe é só uma constipação mais forte". E o facto é que muitas crianças recuperam após alguns dias de febre, tosse e cansaço. Mas a gripe também pode levar a otite aguda, pneumonia, sinusite e, mais raramente, complicações graves que exigem internamento. Uma criança sem doença crónica também pode ter gripe grave.

A vacinação anual reduz o risco de gripe e das suas consequências, embora não impeça todas as infeções. Pode ainda contribuir para diminuir a circulação do vírus entre familiares e na comunidade.



O que mostram alguns dados portugueses?


Um estudo português (1) identificou 2.319 episódios de internamento com diagnóstico de gripe em crianças menores de 5 anos ao longo de dez épocas, de 2008/09 a 2017/18. Excluindo a época pandémica de 2009/10, registaram-se, em média, 189 internamentos por época, cerca de 41 por 100 mil crianças menores de 5 anos. Aproximadamente três em cada quatro internamentos ocorreram antes dos 2 anos.

Ilustração de pneumonia no lobo inferior direito.

Imagem gerada para fins educativos; não é uma radiografia clínica real.


O dado que mais contraria a ideia de que só as crianças "de risco" podem adoecer gravemente é este: cerca de nove em cada dez crianças internadas não tinham uma doença de risco identificada nos registos.


A gripe pode ela própria causar pneumonia ou facilitar uma infeção bacteriana. Pode também agravar a asma e, mais raramente, provocar inflamação dos músculos, do coração ou do cérebro e infeção grave generalizada. O risco de complicações é maior antes dos 5 anos, sobretudo antes dos 2.


O que muda na campanha portuguesa de 2026/27?


A Norma n.º 006/2026 da Direção-Geral da Saúde (2) prevê a vacinação contra a gripe entre 30 de setembro de 2026 e 31 de março de 2027. A data de fim poderá ser ajustada conforme a situação epidemiológica.

A principal novidade para as famílias é o alargamento da vacinação gratuita às crianças dos 2 aos 4 anos, que se juntam às dos 6 aos 23 meses. Assim, todas as crianças dos 6 meses aos 4 anos, inclusive, são elegíveis para vacinação gratuita nesta campanha.

A norma prevê uma vacina trivalente inativada, administrada por injeção. O número de doses depende da idade, do historial vacinal e, a partir dos 2 anos, da existência de fatores de risco:


Situação da criança

Doses da vacina injetável previstas pela DGS

6 a 23 meses, nunca vacinada contra a gripe

2 doses

6 a 23 meses, já vacinada anteriormente

1 dose

2 a 4 anos, saudável, mesmo na primeira vacinação

1 dose

2 a 4 anos com patologia de risco ou em contexto vulnerável, nunca vacinada

2 doses, separadas por 4 semanas

2 a 4 anos com patologia de risco ou em contexto vulnerável, já vacinada

1 dose


Primovacinação significa que a criança nunca recebeu uma vacina contra a gripe sazonal. A recomendação de duas doses na primeira vacinação dos 6 aos 23 meses é uma mudança importante desta época. A norma não explicita, no quadro dessa faixa etária, o intervalo entre doses, mas a recomendação habitual é pelo menos que tenham 4 semanas de intervalo entre si - individualmente, o agendamento deve ser confirmado com a equipa de vacinação.


E depois dos 5 anos?


A vacinação gratuita também abrange crianças e adolescentes mais velhos com determinadas patologias de risco ou em contextos vulneráveis. A lista da norma inclui, entre outras situações, asma que cumpra critérios específicos, fibrose quística, cardiopatias com repercussão clínica, diabetes, algumas doenças neurológicas ou renais, trissomia 21 e imunossupressão. Prevê ainda avaliação individual de situações semelhantes.

Entre os 5 e os 8 anos, algumas crianças nunca vacinadas necessitam de duas doses com quatro semanas de intervalo, nomeadamente quando têm patologia de risco, estão num contexto vulnerável ou convivem com uma pessoa com elevado risco de doença grave. A indicação, a gratuitidade e o esquema devem ser confirmados para cada criança.


Onde é feita a vacinação gratuita das crianças?


As crianças abrangidas pela norma podem ser vacinadas em unidades de saúde do SNS e em hospitais ou clínicas dos setores privado e social autorizados como pontos de vacinação. Embora as farmácias comunitárias participem na campanha, não são o local previsto para a vacinação gratuita pediátrica nesta norma.

A vacina injetável contra a gripe pode ser administrada na mesma ocasião que vacinas do Programa Nacional de Vacinação, em locais anatómicos diferentes. Estas regras constam da Norma n.º 006/2026.


A vacina intranasal é uma alternativa?


Para algumas crianças, sim. A Fluenz(R) é uma vacina trivalente de vírus vivo atenuado, administrada por pulverização nas duas narinas. Está autorizada na União Europeia para crianças e adolescentes dos 2 anos até antes dos 18 anos.

A via nasal evita a picada, mas é de referir que a Fluenz(R) continua a ser uma vacina. Antes da administração, é preciso verificar a idade, o histórico vacinal, as contraindicações e o esquema de doses. Deve ser administrada por um profissional de saúde habilitado, designadamente um enfermeiro em contexto de vacinação, capaz de avaliar a criança e atuar perante uma eventual reação adversa. A informação europeia do medicamento determina que a administração seja feita por um profissional de saúde ou sob a sua supervisão (3). Não se trata de uma aplicação para os pais fazerem em casa.


O que dizem as normas portuguesas sobre a Fluenz(R)?

A Norma n.º 009/2025 mencionava expressamente a Fluenz(R) entre as opções fora da gratuitidade e incluía um quadro dedicado à vacina intranasal. A Norma n.º 006/2026 já não a menciona: enumera apenas vacinas inativadas injetáveis. Por isso, a intranasal não integra a oferta gratuita descrita para a campanha de 2026/27. A sua ausência da norma não significa perda da autorização europeia.

Está prevista a disponibilização da Fluenz(R) no mercado português nesta época, mediante receita médica, a partir do final de setembro, com um preço aproximado de 35 euros.


O esquema intranasal é igual ao da vacina injetável?

Não necessariamente. A tabela da DGS apresentada acima refere-se à vacina injetável incluída na norma. Segundo a informação europeia da Fluenz(R), uma criança dos 2 aos 8 anos que nunca recebeu vacina contra a gripe deve receber uma segunda dose pelo menos quatro semanas após a primeira.

Por exemplo, uma criança saudável de 3 anos em primeira vacinação pode ter um esquema de uma dose da injetável prevista na norma portuguesa ou de duas doses da intranasal segundo a informação do medicamento. Este ponto deve ser esclarecido com o médico assistente antes de escolher a vacina.


É adequada para todas as crianças?

Não. A Fluenz(R) não está indicada antes dos 2 anos. Por conter vírus vivos atenuados, não deve ser administrada a crianças com certas formas de imunossupressão ou que recebam salicilatos. Situações como asma grave, pieira no momento da vacinação, obstrução nasal importante ou contacto próximo com uma pessoa profundamente imunodeprimida exigem avaliação antes da escolha. Em relação aos efeitos pós vacinação mais referidos, contam-se o corrimento ou congestão nasal.


O que nos ensina a experiência de outros países?

A utilização da vacina intranasal em programas públicos infantis já tem vários anos:

  • Reino Unido: em Inglaterra, integra um programa iniciado em 2013 e progressivamente alargado, incluindo vacinação nas escolas. Procura proteger as crianças e reduzir a transmissão na comunidade. A vacina injetável continua a ser uma opção para quem não pode receber a intranasal.

  • Finlândia: em 2026/27, o programa nacional disponibiliza a Fluenz(R) como alternativa à vacina injetável para crianças dos 2 aos 6 anos.

  • Espanha: a recomendação nacional abrange a vacinação infantil dos 6 aos 59 meses, enquanto a escolha da vacina e a organização variam entre comunidades autónomas. Madrid e Andaluzia têm utilizado a intranasal em grupos pediátricos, incluindo campanhas em meio escolar.

Estas experiências mostram o potencial de uma opção sem agulha para facilitar a aceitação e o acesso à vacinação. Proteger mais crianças pode também reduzir a circulação da gripe. Isso não significa que a intranasal seja sempre mais eficaz do que a injetável: a proteção varia entre épocas e a escolha depende das características da criança.


E agora, vamos a algumas das perguntas frequentes dos pais...


O meu filho é saudável. Precisa de ser vacinado?

Como comecei o artigo por dizer, a maioria das crianças recupera bem, mas os dados portugueses mostram que muitas das crianças pequenas internadas com gripe não tinham uma doença de risco identificada. A idade, por si só, é relevante. Em 2026/27, a vacinação gratuita abrange todas as crianças dos 6 meses aos 4 anos.


Se teve gripe no ano passado, já está protegido?

Ter tido gripe não dispensa automaticamente a vacinação nesta época. Os vírus influenza mudam e as vacinas são atualizadas. Também é importante distinguir gripe confirmada de outras infeções respiratórias a que habitualmente se chama «gripe». A vacinação para a gripe é anual.


A vacina pode causar gripe?

A vacina injetável inativada não tem capacidade de causar gripe. A intranasal contém apenas vírus enfraquecidos e é utilizada nas crianças para quem está indicada; também não se espera que cause gripe nessas crianças. Ambas (injetável ou intranasal) podem provocar efeitos passageiros. Lembrem-se ainda que uma criança pode contrair outro vírus respiratório após ser vacinada ou até já ter contactado com o vírus da gripe antes de o sistema imunitário ter tido oportunidade de desenvolver a proteção.


Porque é que algumas crianças precisam de duas doses?

O esquema depende da idade, de já terem ou não sido vacinadas contra a gripe e da vacina escolhida. Para a vacina injetável gratuita, a DGS determina duas doses em situações específicas. A Fluenz(R) tem regras próprias, nesta fase a remeter à própria informação do medicamento: entre os 2 e os 8 anos, prevê-se a necessidade de duas doses na primeira vacinação. Quando é necessária uma segunda dose, convém deixar logo a sua administração planeada.


Vale a pena esperar pela intranasal?

A opção sem picada, quando possível, é certamente útil para as crianças e as suas famílias, mas a sua disponibilidade efetiva em Portugal está prevista a partir do final de setembro, e pode acontecer que o número de doses não seja desde logo paralelo ao número de famílias que a procura. A preferência pela via nasal não deve atrasar desnecessariamente a proteção de uma criança que pode receber a vacina injetável indicada.


Que sinais exigem avaliação médica urgente durante uma gripe?

Dificuldade ou rapidez anormal da respiração, lábios azulados, sinais de desidratação, criança pouco desperta ou que não interage, convulsões, dor muscular intensa que a impede de andar, ou febre e tosse que melhoram e depois regressam piores são sinais de alerta. Perante estes sintomas, procure assistência médica de imediato.


Uma decisão informada e atempada


Para as crianças dos 6 meses aos 4 anos, existe nesta campanha portuguesa uma vacina injetável gratuita. A partir dos 2 anos, a intranasal poderá ser uma opção adicional se estiver disponível e for adequada à sua situação.

Antes da consulta, confirmem a idade da criança, as vacinas contra a gripe que já recebeu e as doenças ou tratamentos relevantes. Perguntem ao vosso médico assistente qual a vacina apropriada, quantas doses serão necessárias, onde pode ser administrada e como ficará registada. Os dados portugueses lembram-nos porquê: a gripe pode exigir cuidados hospitalares também numa criança sem doença de risco conhecida.


  1. Caldas Afonso A, Gouveia C, Januário G, Carmo M, Lopes H, Bricout H, Gomes C, Froes F. Uncovering the burden of Influenza in children in Portugal, 2008-2018. BMC Infect Dis. 2024 Jan 18;24(1):100. doi: 10.1186/s12879-023-08685-z. PMID: 38238649; PMCID: PMC10797867. Acessível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10797867/

  2. Norma nº 006/2026 da Direção Geral da Saúde. Acessível em: https://www.dgs.pt/normas-orientacoes-e-informacoes/normas-e-circulares-normativas/norma-n-0062026-de-17092026-campanha-de-vacinacao-sazonal-contra-a-gripe-outono-inverno-2026-2027-pdf.aspx

  3. Características do Produto - Fluenz(R), Agência Europeia de Medicamentos. Acessível em: https://www.ema.europa.eu/en/documents/product-information/fluenz-epar-product-information_en.pdf


 
 
 

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