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Manual de instruções para as birras


Depois de uma semana a dar algumas dicas nas redes sociais de como lidar com as birras na criança, achei que fazia sentido deixar-vos por escrito um manual SOS para consultarem sempre que precisarem (e, meus amigos, se têm crianças, não tenho nem por um momento dúvida de que vão precisar disto).


Assim, tal qual o manual da vossa máquina de lavar louça (aquele ao qual vocês nunca prestaram atenção porque afinal, os botões são todos iguais e aquilo tem um ON/OFF), vou tornar isto fácil de navegar, porque o vosso filho não tem um OFF. É só seguirem o índice numérico, e vamos passar por tudo o que têm de saber – o que são birras, porque é que acontecem, como podemos preveni-las e/ou lidar com elas, e quando devemos ficar preocupados e pedir ajuda. Prontos?



1. O que são birras?

Isto é o básico dos básicos. Uma birra é uma manifestação emocional, ou expressão emocional intensa, traduzida através do comportamento da criança. Pode ser tão simples como o choro ou o grito, ou mais complexa como o pontapear, morder, bater com a cabeça, lançar-se ao chão... (o céu é o limite).

Apesar de serem claramente episódios difíceis para qualquer pai, são na sua base comportamentos típicos e expectáveis no normal desenvolvimento da criança, na sua esmagadora maioria. Geralmente têm o seu pico entre os 12 meses e os 3 anos de idade, embora possam ocorrer em crianças mais velhas. Basicamente consistem na forma de expressão e comunicação de uma criança que ainda não adquiriu outros mecanismos de comunicação, e portanto revelam uma imaturidade própria de um sistema em desenvolvimento.



2. Porque é que as birras acontecem?

A verdade é que as birras podem ter vários desencadeantes. Às vezes, nem conseguimos bem perceber o que levou à birra, mas devemos sempre ter em atenção que há fatores que certamente vão levar a que as birras mais facilmente surjam – quando a criança tem fome, está cansada, ou tem sono. Para além disso, tipicamente surgem quando a criança sente frustração, ou deseja expressar a sua autonomia. Basicamente, quando quer fazer uma coisa e não consegue, ou quando quer fazer uma coisa e o adulto (por qualquer razão que seja), não deixa. Agravadas em mil se tiver com fome ou sono.




3. Ponha-se no lugar do seu filho

Antes de começar a pensar que a criança está a desafiar a sua autoridade, é mimada, quer fazer sempre aquilo que tem vontade, ou é mal-educada, ponha-se no lugar dela. Com dois anos de idade. Incapaz de comunicar eficazmente consigo, e dizer-lhe de que é que precisa, ou porque é que está frustrada. Não ficava também desorientado? Eu cá ficava. Tente ser empático com o seu filho, vai ser mais fácil de perceber e lidar com o seu comportamento.



4. Podemos nós prevenir uma birra?

Se calhar há algumas que sim, que conseguimos prevenir. Baseiam-se no facto de que o comportamento das crianças é regulado por algumas circunstâncias, e reage às mesmas. Por exemplo – rotinas. A consistência nas nossas ações, e nas rotinas, dão à criança a sensação de previsibilidade e segurança, e isso é sempre reconfortante. Nós podemos ser os maiores aventureiros de sempre, mas via de regra as crianças não lidam bem com surpresas, ou voltas de 180º nas suas vidas. Por isso se essa é a sua intenção, prepare-se para as consequências. Tal como levar uma criança às compras ao supermercado quando está com fome, ou com sono. Não é lá grande ideia. Da sua parte, claro.

Outra coisa que as crianças adoram é sentir-se no controlo. Gostam da sua autonomia, de sentir que têm algum poder de decisão, e nós podemos dar-lhes isso, e mesmo assim funcionar em nosso benefício. A chamada “escolha limitada”, por exemplo:

- Em vez de perguntar o que querem comer ao jantar (o que poderia levar à escolha de um bife Wellington, que estou certa de que é um dos vossos pratos típicos aí em casa), podem dar uma escolha limitada – “queres massa ou arroz para acompanhar a carne do jantar?”

- Também é preferível evitar guerras de roupa a vestir durante a manhã, exatamente quando estamos para sair de casa, e cada minuto conta! Porque não colocar 3 conjuntos possíveis para a criança escolher na noite anterior?

- Se o miúdo quer levar o urso e o carrinho vermelho para brincar no parque, qual é o mal? Deixem-no escolher os brinquedos que quer levar. Desde que não envolva o panda gigante que está em cima da cama (vai sobrar para vocês).

- Na rotina do deitar, perguntem se hoje quer ouvir uma ou duas histórias. Porque senão vão ser três, quatro, cinco, trezentas e sessenta e sete...

- Se querem efetivamente levar a criança às compras ao supermercado (ou não têm outra hipótese), porque não deixá-la escolher se quer brócolos ou cenouras? E deixá-las escolher uma fruta para levar no carrinho?


5. Devo eu contrariar a criança numa birra para ela aprender a ser contrariada?

Ah, esta é difícil. Há quem defenda que as crianças têm de ser contrariadas para aprenderem quem manda, ou aprenderem o que significa o “não”. Mas a verdade é que a vida vai ter muitas contrariedades lançadas no caminho dela, sem vocês serem mais uma. E o “não” deve ser reservado para situações em que efetivamente tem de ser “não”. Há guerras que não merecem ser travadas, e outras que sem dúvida têm de ter lugar, por isso escolham bem as vossas batalhas. Se é algo sem importância, e manterem a postura é apenas porque “o adulto não dá o braço a torcer”, vão gastar a vossa energia, a da criança, e não ganham nada senão uma valente dor de cabeça. Vale bem mais tentarem um distrator, de forma que a criança mude o seu foco para outra atividade, outro interesse. E muitas vezes isto funciona, porque os miúdos são bastante curiosos e exploradores, e adoram coisas diferentes e sentir-se interessados. Agora se a vossa criança embirrou que vai trepar aquela estante, tipo alpinista, e da qual pode cair e verdadeiramente magoar-se, se vocês não a conseguem distrair do seu objetivo, não podem efetivamente deixar que ela o faça. Da mesma maneira que se teima em mandar o comando contra a televisão, não o pode fazer, pois pode partir uma ou outra coisa. E aí, não é claramente não. “A mamã” ou “o papá” “não te podem deixar fazer isso porque podes magoar-te”, ou “porque a televisão pode estragar-se”. Há uma razão, e válida, para o “não”.



6. Então e como lidar com uma birra já completamente instalada?

Esta é quase só para profissionais. Tipo, vocês. Em primeiro lugar, respirar fundo, e manter a calma. Só isto, é o essencial e é TUDO. Temos uma criança à beira de um ataque de nervos, não precisamos do adulto para fazer pandã. Conte até 10, pense naquela praia em Punta Cana, e repita para si próprio – isto é uma birra, e as birras são normais nas crianças.

O passo a seguir é verificar as condições de segurança. Retire a criança de qualquer situação que lhe possa causar dano imediato (de cima da mesa, do meio da estrada...) ou a outros/outros objetos. Se tal for possível, pode ser útil levar a criança para um ambiente mais calmo, longe de estímulos onde possa ter oportunidade de acalmar mais rapidamente.

Depois, mantenha um tom de voz firme, mas gentil. Diga-lhe, por exemplo, que percebe que ela está zangada, ou aborrecida, e que está ali para ajudá-la a sentir-se melhor, ou apenas “até ela se sentir melhor”. Podem ser mais úteis frases curtas, como “a mamã está aqui para ti” ou “não há problema de estares triste”. Algumas crianças podem acalmar-se mais facilmente com um abraço. Outras, nem se pode chegar perto. É importante conhecermos os nossos filhos nesse aspeto, e por vezes só verdadeiramente o chegamos a fazer quando passamos por isso. Valide e nomeie a emoção – triste, zangado, aborrecido. “É normal sentires-te assim, aborrecido porque...” Isto vai fazer com que a criança possa progressivamente associar a emoção à palavra, e expressar-se futuramente de formas menos... explosivas.

Aguente firme. Às vezes não tem volta a dar. As birras caracteristicamente atingem um pico, e depois decrescem. Quando não temos outra resposta a dar, podemos simplesmente oferecer a paciência e o suporte necessário com nossa presença enquanto a criança liberta as suas emoções. Da mesma forma que se atingimos o nosso limite (e há dias assim) e a segurança da criança está assegurada, pode ser mais benéfico tirarmos um momento noutro local para nos acalmarmos.

Não é não. Seja consistente, mantenha o não quando é verdadeiramente importante. Não podemos ir sacar unicórnios de um chapéu para oferecer à criança no aniversário, meus amigos. Aliás, se encontrarem algum digam-me, que gostava de ver.

Se tiverem oportunidade, depois da criança acalmar, e de acordo com a idade, procurem rever o que aconteceu naquele momento, e procurar que a criança vos explique o motivo que a levou aquele comportamento, e o porquê da vossa atitude em resposta.



7. E quando é que eu sei se as birras são anormais, ou se há algum problema com o desenvolvimento da minha criança?

A verdade é que birras, só por si, não são uma manifestação única quando há um verdadeiro problema. Há, de facto, alguns problemas do neurodesenvolvimento que se acompanham de birras mais frequentes, com maior agressividade e de mais difícil controlo, mas raramente essa é a única manifestação. Todavia, podemos simplesmente sentir-nos incapazes de lidar com essas manifestações, e elas interferirem com a nossa dinâmica familiar, e só por isso é de grande valia procurar ajuda. Para que possamos rever e reforçar estratégias que nos ajudem não só a nós, mas que através disso possamos igualmente compreender e ajudar os nossos filhos. Depois, há crianças que têm birras de maior “intensidade”, como bater com a cabeça no chão, ou na parede, que podem ser muito difíceis de presenciar, principalmente quando são muito frequentes. Da mesma forma, a persistência de birras para além da idade habitual também pode ser um indicador de que alguma coisa não está bem. E aí, procurem o conselho do vosso médico. Ele saberá ajudar, ou encaminhar-vos para quem o possa fazer.


Espero que este “manual de instruções” de certa forma torne as birras um pouco mais compreensíveis para vós. Porque sei, naturalmente, que elas vão continuar a existir, pois fazem parte do normal desenvolvimento de uma criança. Mas nós nem sempre estamos nos melhores dias, e é importante reconhecermos isso também. Que as birras não são, de forma nenhuma, situações fáceis para ninguém, mas que, acima de tudo, a vossa criança olha para vós como um exemplo de comportamento, e de certa forma, como sendo o porto seguro que vai sempre acolhê-la, nos bons e nos maus momentos. Crescemos juntos, não é? É, mas a responsabilidade disso, caros pais, está do nosso lado, e não se esqueçam disso.

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