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Morreu-me um sonho...


A semana passada foi verdadeiramente agitada em termos de eventos. Trágicos, na sua maioria. Começou logo bem com o anúncio de medidas anunciadas pelo nosso primeiro-ministro, António Costa, para ajudar as famílias a suportar o aumento do custo de vida. A celeuma à volta das mesmas foi de tal ordem, nas redes sociais, que surgiram publicações mesmo engraçadas, espero que tenham tido a oportunidade de se rirem um bocado. Uma verdadeira tragi-comédia, na realidade. Eu às vezes acho que os nossos governantes deviam ir fazer o despiste de perturbação do espetro do autismo. Habitam numa realidade à qual, tristemente, nós não conseguimos ter acesso. Mas deve ser bem melhor que a nossa, cá me parece. Porque nessa realidade alternativa, um pagamento extraordinário de 125 euros em Outubro a cada cidadão com rendimento até 2.700 euros mensais e de 50 euros por cada criança ou jovem a cargo, resolve todos os problemas causados por um aumento sem precedentes do custo de vida. Eu só em material escolar para este ano letivo para os meus dois filhos gastei mais do que 200 euros. E verifico o que está em promoção, reutilizo o que tenho do ano passado, e vou às compras sozinha para não ter o problema de a meio da tarefa ter de comprar o belo do caderno da moda “que toda a gente tem” e que custa o dobro do preço. Sem falar da roupa (tem graça que os miúdos crescem e a roupa deixa de lhes servir, temos de comprar nova, não sei quem é que se lembrou de pôr os miúdos a crescer que era bem mais fácil e barato se tivessem sempre o mesmo tamanho). E o calçado? Amigos, já não se faz calçado como no meu tempo. Compramos umas sapatilhas, e não interessa se são de marca ou se as compramos na feira, na prática nem uma semana mais tarde já estão todas coçadas na biqueira (se tivermos a sorte de não romperem, claro). Depois há outra coisa que os miúdos fazem e que não dá jeito nenhum. Comer. Péssimo hábito. E então se lhes quisermos dar salmão agora, só nas promoções. Se tivermos sorte. Melhor comprar dourada, está mais vezes em promoção e é peixe na mesma. Diz que o peixe faz bem à saúde, não é? Mas não à carteira, neste caso. Portanto, entre deixar os meus filhos analfabetos, descalços, e com fome, creio que os 50 euros que o Exmo. Primeiro-ministro Costa me vai dar vão servir apenas para eu emoldurar e deixar na parede para todos os dias acordar bem-disposta, com a graça da situação.


Mas adiante, que não era sobre isso que eu tinha pensado em escrever quando comecei esta narrativa. Era sim sobre o verdadeiro acontecimento desta semana que foi a morte da Rainha Isabel II. Penso que terá sido a monarca de reinado mais longo na história do Reino Unido, por isso, já estava no trono quando eu nasci (há muitos anos), e lá se manteve por grande parte da minha vida. E quando eu era pequena, e depois adolescente, fui acompanhando a vida desta família real, porque era a vida de “conto de fadas”. Eu queria lá saber se era república, monarquia, ou o que era. Ao crescer, fascinava-me a princesa Diana, e fingia que eu própria era uma princesa, com vestidos e jóias, a dançar em festas, e a encontrar o meu príncipe encantado. Como o príncipe William é praticamente da minha idade, naturalmente tive alturas em que achei que era uma excelente candidata a princesa. O azar dele foi que nunca me chegou a conhecer, senão certamente o destino teria sido outro. E Isabel II surgia sempre na minha cabeça como a avó severa, parede inabalável, desprovida de sentimentos, que não via o sofrimento da “princesa do povo”. Reparem que na minha altura não tínhamos muito mais com que nos entreter, era isso ou a telenovela “Explode Coração”, e convenhamos que embora a mística cigana seja interessante, não se compara à realidade (“palpável”) da monarquia britânica. Tive um grande desgosto quando a princesa Diana morreu naquele acidente de carro em Paris. A sério. Depois entrei para Medicina e deixei de pensar nisso. Curiosamente. Durante vários anos tive mais coisas em que pensar (felizmente). Mas mais recentemente em circuito Netflix, tive a oportunidade de ver a série “The Crown”, que não sei se conhecem, mas retrata a vida de Elisabeth II, de uma forma bastante interessante. Acho que não a pretende elevar, nem da mesma forma demonizar, mas apenas mostrar o seu percurso de vida, que é bastante interessante, mesmo do ponto de vista histórico. A passagem pela 2ª Guerra Mundial, a descrição da tragédia de Aberfan (em que uma escola no País de Gales ficou soterrada, por deslizamento de resíduos de mineração, tirando a vida a 116 crianças e 28 adultos), a relação com Margaret Thatcher… ao nível pessoal a relação com o filho Carlos, com a irmã, com o próprio marido… de certa forma, acabou por a “humanizar”, ao meu olhar. Não sei se terá tido um papel muito mais do que decorativo, (fica uma decoração um bocado cara, hein?) mas mesmo assim acabou por desempenhá-lo com dignidade, e sentido de dever. Não quero aprofundar-me em assuntos do foro sucessório, ou se com ela termina a “monarquia”, até porque durante a semana tive oportunidade de assistir a alguns comentadores desempenharem exemplarmente esse papel (figuras verdadeiramente assustadoras, pareciam ter saído de uma realidade alternativa tipo multiverso monárquico, capazes de nos causarem pesadelos por toda a eternidade). Mas, de certa forma, esta semana morreu-me um sonho.

As princesas, e as rainhas, afinal, não vivem para sempre.

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