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As maiores mentiras que nos contam


Nem de propósito! Deram conta que ontem foi o Dia das Mentiras? Acordei e pensei que era dia merecedor de uma publicação da minha parte.

Assim que se lembrem, dou-vos uns segundos para se recordarem da maior mentira que já vos pregaram, no campo da maternidade. Estão a ter dificuldades? Então eu começo, e à medida que vou andando, tenho esperança de que se vão recordando de umas também vossas pelo caminho.


1. Estar grávida é a melhor coisa do mundo!

Gosto muito desta. Particularmente então quando é seguida do “estado de graça”, até fico com pele de galinha. É um verdadeiro estado de graça enjoar com cada micronano odor, mesmo às vezes até aqueles que antes gostávamos. E então vomitar até ficar quase com o estômago de fora? Uiii, isso então é que é de categoria! A parte em que não consigo ver os meus dedos dos pés, e tenho de pedir ajuda para tirar as meias, deixa-me sempre com vontade de comemorar. Ter uma microbexiga também é fixe, na gravidez. Dá para fazer um tour das casas de banho das estações de serviço nas auto-estradas, e treina-nos desde logo para o futuro acordar de 3 em 3h durante a noite para dar de mamar. A natureza pensa em tudo, não é? Outra coisa que recordo com saudade desses tempos é não ter posição para dormir – que bem que sabia, passar a noite toda a tentar encaixar uma almofada em formato de rolo entre as pernas de maneira a equilibrar com a pança jeitosa. Ah, espera, e quando acabavas de conseguir esse autêntico tangram dava-te a vontade de ir ao wc.

Não te sintas um alien se não achares que estar grávida é a melhor coisa do mundo. Tem coisas maravilhosas, sim, mas não é pêra doce nenhuma.


2. Vais ver que depois do parto esqueces-te logo do que passaste, da vez seguinte nem te lembras da dor.

Só se sofresse de demência pós-parto. Será que isso é uma entidade reconhecida nos livros de medicina? Ter filhos não é como andar de bicicleta, meus amigos. Se compararem com ser atropelada por uma bicicleta, já acho mais parecido. E tem de ser daquelas bem artilhadas. Lembro-me do momento feliz em que rompem as águas (é sempre agradável parecer que se fez chichi pelas pernas abaixo), ou da felicidade com que senti as primeiras contrações. O meu primeiro pensamento foi logo “tenho tanta sorte de ser mulher, não trocava esta dor por nada!”. E foi exatamente nesse espírito, que quando a obstetra me perguntou se eu queria epidural (era um bocadinho “cedo”, ainda não tinha muita dilatação, segundo ela) eu respondi – Estás doida? Manda vir as drogas, se queres que eu colabore alguma coisa contigo! Ainda hoje estou convencida que se não me manifestasse, tinha fechado a loja logo ali no primeiro parto. Portanto, NÃO, minhas amigas, se não ficarem logo desejosas de engravidar no mês a seguir ao parto, não são anormais, são humanas.


3. Os bebés são criaturas muito fáceis nos primeiros tempos, só comem e dormem.

Ehhhhhh....hummmmm...não sei como vos dizer isto. Se calhar é melhor despachar já as coisas e ser direta. Os bebés são criaturas que sim, é verdade que comem... e dormem... mas também fazem muito chichi, fazem cocós que chegam aos sovacos e não dá para limpar só com toalhetes... depois metem os pés no cocó e torcem-se todos...e têm outra coisa ligeiramente chata. Só um pouco. Choram muito! Não sei porquê, anda sempre toda a gente de roda deles a tentar interpretar os seus mais pequenos desejos e ainda assim são uns ingratos e choram com toda a força. Choram porque têm frio, choram porque têm fome, choram porque têm a fralda molhada, choram porque os despimos, choram porque os vestimos, choram sabe-se lá porquê. Às vezes estou convencida que choram só porque nos querem ver tipo baratas tontas a tentar adivinhar os desejos de suas excelências. Tipo aquele jogo do quente e frio. O choro começa a aumentar de intensidade quando vocês estão no frio, e começa a diminuir quando se aproximam daquilo que eles querem. E vocês ah, e tal, agora já te percebi, já sei o que queres. E da vez seguinte vão e tentam fazer a mesma coisa e já não resulta. Brutal. Agora aguentem-se à bronca, é esperar que cresçam e comecem a falar para vos dizer o que querem.


4. A maioria dos bebés dorme a noite toda

Se esta crónica tivesse som, vocês ouviam o meu riso sarcástico daqui até à China nesta afirmação. Isto é só uma mentira que vos pregam para ver se vocês mantém a taxa de natalidade. Ou vocês acham que a segurança social se paga sozinha, é? Não, qualquer pessoa que saiba um bocadinho de fisiologia do sono sabe que ter um bebé é como jogar à roleta russa, nunca se sabe o que vem a seguir. É que podemos ter a sorte de ter um bebé alinhadinho que com a barriguinha cheia se aguente mais ou menos bem, ou o azar de ter outro tipo Gremlin, de dia assume o papel da criatura mais fofinha e de noite, se as coisas não estiverem de feição, até dentes parece ter! E quando só nos apetece atar-lhes as mãos atrás das costas, porque quando estão quase a adormecer fazem aqueles solavancos e auto-acordam-se? Ou quando, tipo, experimentamos colocar uma fralda de pano com um bocadinho de leite da mama, ou quentinha, na cama, e vamos com muito jeitinho a tentar pousar a fera profundamente adormecida, e os ditos cujos vão e parece que até adivinham que aquilo faz uma ligeira corrente de ar e abrem a goela? Não, gente, a maioria dos bebés não dorme a noite toda. Lamento destruir esta vossa ilusão.


5. Depois dos terríveis 2, já passaste o pior da maternidade

Das minhas preferidas, também. Não sei bem porque é que lhe chamam os terríveis dois, mas desconfio que tenha a ver com a questão das birras, depois a pressão do desfralde... e é verdade. As birras são ótimas, convido qualquer um que queira domesticar uma fera a não transpirar quando a criancinha se manda ao chão no corredor do supermercado porque ninguém lhe compra o panda que faz chichi no penico e que custa um terço do vosso ordenado. E a não sentir a pressão dos 300 olhos acusadores à volta – 150 vão achar que se está a ser demasiado mole, e os outros 150 uma déspota violenta e abusadora. Qualquer um que NÃO está na nossa situação faz sempre melhor, nunca deram por ela? Seja como for, adiante. Uma vénia a quem acha que a maternidade não tem desafios depois dos 2 anos. Experimentem fazer uma viagem longa com trezentas paragens para fazer chichi, ou a ouvir de 5 em 5 minutos se já chegámos. Ou a sentirem-se tipo um uber para coordenar escolas, atividades extracurriculares e festas de aniversário. Ou falar com um filho adolescente sobre espermatozoides. Não, estou convencida que isto do pior da maternidade só passa mesmo... nunca. Tendo em conta o poder de compra dos dias de hoje, em que os filhos ficam a viver sempre com os pais, a minha ideia de desmontar o quarto dos miúdos para fazer um escritório já era.


São apenas alguns exemplos daquilo que eu já ouvi, e do que senti, e passei, nisto da maternidade. Mas não me sinto pior mãe quando vos digo que tem alturas, e dias, em que claramente não é nada fácil. Portanto, quando alguém vos tentar “vender” a maternidade como um verdadeiro mar de rosas, chamem a polícia, que anda burlão pela costa. Se é bom ser mãe? Claro que é, não trocava nada do que vos disse anteriormente para ser de outra forma. Mas não preciso de romances cor-de-rosa na minha vida real. Porque quando o romance acaba, posso achar que fui eu que falhei, ou fui incapaz num dos papéis mais importantes da minha vida. E na realidade, fui apenas mas também tanto, que é ser uma mãe de verdade. Daquelas de carne, osso e coração.

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