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Eu bem pedi...


Mais um dia na urgência pediátrica. Não é que estivesse a ser um dia particularmente atarefado, mas eu ainda não tinha tido a oportunidade de parar para fazer o meu belo lanche da tarde (é muito comum, isto de nos “esquecermos” de comer quando estamos de urgência. Depois quando vamos a dar por ela juntamos o lanche com o jantar, e por vezes até a ceia…).

Ora estava eu precisamente a dirigir com alta precisão o meu pão com manteiga (trazido do almoço do refeitório, não há nada a desperdiçar) com destino à minha boca esfomeada, quando entra a enfermeira da triagem, e me diz: “Drª, acabei de triar uma jovem que é melhor ser a Drª a ver.”

Gostava sempre muito desta introdução, era invariavelmente um bom sinal. Mas confesso que já ia estando um pouco habituada a isto, afinal a minha área de dedicação hospitalar era a Medicina do Adolescente, e não era de todo incomum eu acabar por ver os adolescentes em contexto de urgência.

Olhei para o pão (e garanto-vos, acho que ele me olhou de volta no jeito de, hum, ainda não é desta), pousei-o novamente, e dirigi-me para o gabinete. Chamei a adolescente (para o efeito, vamos dizer que era a Rita), e esta entrou no meu gabinete, acompanhada pela mãe.

A Rita era uma rapariga de 15 anos de idade, igual a tantas outras, que ia à urgência com a mãe por queixas de dor de barriga. Percebi rapidamente que seria uma família com um contexto económico desfavorável, e eram pessoas bastante simples, e corretas. Comecei a entrevista com as perguntas habituais – quando é que tinha começado a dor de barriga, se era uma dor constante ou se tinha alturas em que era pior, se tinha vómitos ou febre, como estavam a funcionar os intestinos… enfim, o rol de questões típicas nesta situação. Não cheguei a parte nenhuma em concreto, pelo que passei logo de seguida para o exame físico. Quando lhe pedi para se deitar na maca, notei logo ali um certo “desconforto”, e a Rita não parecia com muita vontade de se deixar observar. Eu expliquei-lhe, como tenho por hábito, “Rita, bem sei que nunca gostamos muito desta parte, mas eu tenho de ver a tua barriga, para perceber o que é que se passa contigo”.

Sob o olhar atento da mãe, a Rita lá se deitou na maca, e novamente com insistência minha, puxou suavemente as camisolas para cima, colocando a sua barriga à mostra. Quando olhei para a Rita, assim descoberta, senti um friozinho subir pelas minhas costas, e como já sei que me acontece quando sou apanhada de surpresa, o sangue fugiu-me das mãos, unhas roxas, dedos gelados. A barriga da Rita contava-me uma história. E não era uma história das de encantar. Olhei para trás, para a mãe da Rita, e percebi que não estava surpreendida.

Sentei-me à beira da Rita, que reparei estar a tremer ligeiramente, pousei ao de leve as mãos na sua barriga, e palpei. Palpei o que já sabia que ia palpar, um fundo do útero bem acima da zona do umbigo.

- Rita, quando é que foi a última vez que tiveste o período?

A Rita baixou os olhos para o alto da sua barriga, e disse baixinho:

- Já não me recordo, Drª, mas foi há algum tempo. Também nunca fui muito certa…

Nessa altura, a mãe da Rita levantou-se da cadeira, e agarrou na minha mão.

- A minha Rita está de bebé, não está?

Não havia como dizer isto de outra forma, pelo que lhe respondi, com a tranquilidade possível, “penso que sim”. Nessa altura, ambas choravam, e a mãe virou-se novamente para mim, e disse:

- Drª, que desgraça a nossa. Eu já desconfiava… mas estive no nosso médico ainda há tempos, eu disse-lhe que queria que ela tomasse a pílula, mas ele respondeu-me que ela era muito nova, que ainda era muito cedo para isso… e agora?

E agora, pensei eu de mim para mim. E agora? Agora a Rita estava com um bebé na barriga. A Rita tinha 27 semanas de gravidez, um bebé que na ecografia estava aparentemente bem, mas que nem ela (nos seus poucos 15 anos), nem a sua mãe estavam preparados para ter. E aquela mãe, apesar de toda a sua simplicidade, e da sua baixa escolaridade, tinha percebido que havia ali um risco, e tinha pedido ajuda.

Agora, mais do que “demasiado cedo” para tomar a pílula, era “demasiado tarde” para o que não fosse do que continuar com aquela gravidez.

Levam-se grandes lições da urgência. Por vezes a melhor maneira de protegermos os nossos adolescentes envolve sermos capazes de os proteger deles próprios. Há muito caminho ainda a trilhar no campo da educação para a saúde, na prevenção de comportamentos de risco e da gravidez indesejada, mas o que não pode acontecer é deixarmos, enquanto profissionais de saúde, que mitos ou crenças de ordens diversas, não fundamentados, interfiram nos cuidados que prestamos à população.

Assim, não vos sei dizer o que aconteceu à Rita, depois que ela e a mãe deixaram a urgência naquele dia. Gosto de pensar que tudo correu bem para eles, e foi o que lhes desejei do fundo do coração. Mas sei que se sonhos havia na Rita, muitos deles foram despedaçados ali, naquela urgência. E ninguém merece, aos 15 anos, ficar sem sonhos de criança.

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