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Os filhos de quatro paredes


Desta vez fui desafiada a fazer um texto neste sentido. Confesso que este tema já “pululava” na minha mente há algum tempo (andam lá vários a saltitar!), mas sabem aquela sensação familiar de não ter tempo? Pois é. Era mais ou menos isso até me dizerem “Tem de fazer uma publicação sobre os benefícios de brincar na rua, porque os pais têm medo que os meninos apanhem doenças por mexerem na terra, ou que se constipem por saírem em dias de chuva”. E cá estou eu, a responder a este desafio. Claro que neste momento me sinto como Maomé à frente da sua montanha. Ir contra convicções e dogmas estabelecidos na nossa mente é uma batalha hercúlea. Mas cá estou eu, tal qual uma gotinha de água – “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.


Alguns de nós, e certamente muitos e muitos dos nossos filhos, serão os filhos de quatro paredes. Nascidos e criados em mundos confortavelmente limitados por paredes com isolamento térmico, ambientes climatizados, vidros duplos... pele e pés cobertos por tecidos e sapatos que nos mantêm quentes... ecrãs múltiplos que captam a nossa atenção e tempo... tudo isto inegavelmente contribuindo para o nosso conforto (ninguém discute isto), mas de certa forma entorpecendo os nossos sentidos, e o contacto das nossas crianças com o exterior.


Quero falar-vos da importância de brincar no exterior, particularmente para as crianças (e vejam bem, que é extensível também aos adultos...). E para isso vou explicar-vos um estudo de 2020, que foi uma revisão do impacto do brincar não estruturado no exterior no desenvolvimento precoce da criança. Este estudo (a referência será colocada no final, para que possam consultar se assim o desejarem) reuniu cuidadosamente a evidência neste sentido, incluindo crianças entre os 2 e os 12 anos. Existe uma preocupação crescente com a saúde física e mental das crianças, uma vez que situações como a obesidade e as doenças mentais têm aumentado notavelmente, e se sabe que a atividade física no exterior diminui o risco destas situações, a curto e médio prazo. Sabe-se ainda que brincar no exterior aumenta a resiliência emocional e social das crianças. É absolutamente inquestionável a importância do BRINCAR – é fundamental para o desenvolvimento da criança, promovendo as capacidades motoras, o desenvolvimento cognitivo e ainda o relacionamento social. E apesar de todos nós não termos dificuldade em entender isto, o certo é que progressivamente brincar no exterior se tem tornado menos e menos frequente. Bem sei que tivemos uma pandemia pelo meio, mas a verdade é que não a podemos culpar de tudo, e esta tendência já existia bem antes de o COVID-19 ter tomado parte nesta equação. E porque é que muitos de nós, enquanto pais, temos tanta dificuldade em lidar com o brincar no exterior? Por vários motivos – porque as nossas casas e escolas não têm espaço exterior, porque as nossas cidades têm poucos espaços verdes, porque não temos tempo para ir com elas para a rua, porque temos medo de acidentes e doenças no exterior, porque as crianças se entretêm com outras coisas dentro de casa...


Nos últimos anos tem havido alguma investigação no benefício em saúde do chamado “brincar em natureza”, a que alguns têm já chamado a Vitamina N (N de natureza). Analisam os benefícios de expor as crianças ao ambiente natural com plantas, terra, pedras, lama, areia, jardim, lagos, outras fontes de água, florestas... e encontraram efeitos positivos na saúde mental, no rendimento académico, na atividade física, no desenvolvimento social e cognitivo das crianças. E no que respeita ao desenvolvimento cognitivo, a aprendizagem, criatividade e a brincadeira imaginativa eram resultados muito positivos desta exposição. Assim, é inquestionável o benefício que estas atividades de brincadeira não estruturada no exterior, na natureza, podem ter para o desenvolvimento dos nossos filhos. E já há várias escolas a optar por incluir (umas mais, outras menos, também de acordo com as possibilidades) as atividades no exterior no seu programa, porque claramente reconhecem as vantagens que este brincar não estruturado na natureza tem, para as crianças.


Então e agora, relativamente aos nossos “travões mentais”. Que as nossas crianças se constipem por andar à chuva. Bom, não se fica doente por apanhar chuva ou andar na rua. As constipações requerem contacto e contágio pelos vírus respiratórios – que já se sabe que só acontece se houver contacto com as secreções de alguém infetado, ou com objetos contaminados. Ora, estar em ambientes fechados aumenta e muito a propagação dos vírus respiratórios (pela proximidade entre crianças), pelo que podemos dizer claramente que estar na rua diminui essa probabilidade (e se bem se recordam, nesta pandemia o problema não era estar na rua, mas sim os aglomerados de pessoas...). E se estão com medo que as vossas crianças se molhem e “apanhem frio”, saibam vós que existem umas maravilhas da inovação tecnológica – impermeáveis e galochas. E não há nada que um bom conjunto de roupa seca não resolva, quando se chega à escola ou a casa. Portanto por aí devíamos estar resolvidos.

E quanto ao mexer na terra para fazer bolos, ao saltar para poças de lama, ao apanhar pedrinhas na beira do lago? Trará isso alguma desvantagem para as crianças? Alguns estudos recentes levantam a hipótese de que a exposição a estes materiais tem na realidade um efeito imunomodulador positivo, ou seja, que as bactérias que se encontram em crianças que não têm esta exposição são mais frequentemente causadoras de doença do que aquelas que se encontram em crianças expostas. Sim, porque como vocês já sabem, cada um de nós vive com milhões e milhões de bactérias no seu corpo, e é importante que essas bactérias sejam das “boazinhas”, senão claramente levamos uma tareia nesse campo. É que elas já cá andam há bem mais tempo do que nós.


Portanto, espero ter defendido bem a minha dama. Quem me conhece sabe bem que não defendo fundamentalismos – para mim, o ideal é o equilíbrio. A sociedade avança, e nós avançamos com ela, no que diz respeito aos ganhos em conforto, alimentação, tecnologia. Mas não desprezemos a importância daquilo que é mais antigo que nós. Daquilo que permite, na realidade, que serzinhos tão desprovidos de interesse para o planeta Terra (somos, aliás, o que mais ameaça este belo planeta) vivam, respirem, e continuem por cá. A natureza tem necessariamente de fazer parte de nós. Foi ela que nos criou, e é ela que nos alimenta e mantém. Nós só vivemos na ilusão que ter um cérebro nos torna mais espertos que ela.



Referências bibliográficas


The impacts of unstructured nature play on health in early childhood development: A systematic review Dankiw KA, Tsiros MD, Baldock KL, Kumar S (2020) The impacts of unstructured nature play on health in early childhood development: A systematic review. PLOS ONE 15(2): e0229006. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0229006


Long-term biodiversity intervention shapes health-associated commensal microbiota among urban day-care children

Rosland IM, et al

Environment International, Volume 157, 2021, 106811,

ISSN 0160-4120, https://doi.org/10.1016/j.envint.2021.106811.

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