SARAMPO: UMA DOENÇA QUE ESTAVA CONTROLADA, MAS QUE ESTÁ A REGRESSAR
O que todos os pais devem saber sobre os sintomas, os riscos e a importância da vacinação.

Durante muitos anos, o sarampo foi uma doença que praticamente deixou de fazer parte das preocupações das famílias portuguesas. Graças à vacinação, tornou-se raro encontrar uma criança com sarampo e muitos pais (bem como médicos!) nunca chegaram a conhecer alguém que tivesse tido a doença.
Mas há uma realidade que não podemos ignorar: o sarampo está a regressar a vários países onde já tinha sido eliminado ou estava muito bem controlado.
Em Portugal, segundo os dados mais recentes da Direção-Geral da Saúde (DGS), divulgados a 22 de outubro, foram confirmados 15 casos de sarampo entre 1 de janeiro e 21 de outubro de 2026.
Só desde o início de outubro, foram identificados cinco casos na região de Lisboa e Vale do Tejo, envolvendo três adultos, uma criança e um bebé com menos de um ano. Três destes casos foram importados, em pessoas sem registo de vacinação que tinham viajado recentemente para países com elevada circulação do vírus. Os outros dois foram casos secundários, ou seja, resultantes de transmissão da doença.
Apesar destes casos, a DGS sublinha que Portugal mantém elevadas coberturas vacinais, que constituem uma importante barreira à circulação do vírus. A identificação de casos importados não significa, por si só, que exista transmissão sustentada da doença no nosso país.
Do outro lado do Atlântico, a situação é bastante mais preocupante. Nos Estados Unidos, onde o sarampo tinha sido declarado eliminado em 2000, foram confirmados mais de 4.400 casos apenas em 2026, até meados de outubro.
Estes números devem levar-nos a refletir sobre uma questão fundamental: como é possível que uma doença para a qual existe uma vacina segura e altamente eficaz esteja novamente a causar surtos?
A resposta envolve vários fatores, incluindo a existência de pessoas não vacinadas, a diminuição da cobertura vacinal em algumas comunidades e as dificuldades em manter uma proteção coletiva suficientemente elevada.
Neste artigo, vamos compreender o que é o sarampo, como se transmite, quais são os sintomas e as possíveis complicações, como podemos proteger as nossas crianças e porque é tão importante manter a vacinação atualizada.
1. O que é o sarampo?

O sarampo é uma doença infeciosa causada por um vírus do género Morbillivirus, pertencente à família Paramyxoviridae.
É uma infeção que afeta sobretudo o aparelho respiratório, mas que pode ter consequências em vários órgãos e sistemas.
Ao contrário do que algumas pessoas ainda acreditam, o sarampo não é apenas uma doença infantil caracterizada por febre e manchas vermelhas na pele.
Pode provocar complicações graves, incluindo pneumonia, encefalite (inflamação do cérebro) e, em situações mais raras, a morte.
Embora qualquer pessoa sem imunidade para a doença possa contrair sarampo, alguns grupos apresentam maior risco de complicações, nomeadamente os bebés, as crianças pequenas, as grávidas e as pessoas com alguma forma de imunossupressão.
Uma das doenças mais contagiosas que conhecemos
O sarampo é extraordinariamente contagioso.
O vírus transmite-se pelo ar, através de partículas respiratórias libertadas quando uma pessoa infetada respira, fala, tosse ou espirra.
Estas partículas podem permanecer suspensas no ar de um espaço fechado durante algum tempo, mesmo depois de a pessoa infetada ter saído.
O vírus pode permanecer infecioso no ar até cerca de duas horas, dependendo das condições ambientais.
Isto significa que não é necessário tocar numa pessoa doente para contrair sarampo. Em determinadas circunstâncias, basta partilhar um espaço onde esteve uma pessoa infetada.
Estima-se que, entre as pessoas suscetíveis expostas a alguém com sarampo, até 90% possam ficar infetadas.
É precisamente esta enorme capacidade de transmissão que torna a vacinação tão importante.
2. Quais são os sintomas do sarampo?
Os sintomas não aparecem imediatamente após o contacto com o vírus.
O período de incubação é habitualmente de cerca de 10 a 14 dias até ao início dos sintomas, embora possa variar, e a doença costuma evoluir em diferentes fases.

Primeira fase: parece uma simples infeção respiratória.
Nos primeiros dias, o sarampo pode ser confundido com outras infeções virais.
Os sintomas mais característicos são:
- Febre, frequentemente elevada;
- Tosse;
- Corrimento nasal;
- Conjuntivite, com olhos vermelhos e lacrimejantes;
- Mal-estar geral e cansaço.
Nesta fase, a criança pode ainda não apresentar qualquer alteração na pele.

Um sinal particularmente característico do sarampo são as manchas de Koplik: pequenas lesões esbranquiçadas que surgem na mucosa da boca, habitualmente na parte interna das bochechas.
Estas manchas podem aparecer antes da erupção cutânea, mas nem sempre são identificadas.
Segunda fase: aparecem as manchas na pele.
Habitualmente, três a cinco dias após o início dos primeiros sintomas, surge uma erupção cutânea característica.
As manchas começam geralmente na face, junto à linha de implantação do cabelo e atrás das orelhas, estendendo-se progressivamente ao tronco e aos membros.
São manchas avermelhadas que podem confluir, formando áreas maiores de vermelhidão.
Nesta fase, a febre pode atingir valores elevados e o estado geral da criança pode agravar-se.
A erupção tende depois a desaparecer progressivamente, seguindo aproximadamente a mesma ordem em que apareceu.
Atenção: o sarampo transmite-se antes de aparecerem as manchas!
Uma pessoa com sarampo pode transmitir o vírus desde cerca de quatro dias antes até quatro dias depois do aparecimento da erupção cutânea.
Isto significa que uma criança pode estar a transmitir sarampo quando ainda parece ter apenas uma constipação acompanhada de febre.
É uma das razões pelas quais os surtos podem ser tão difíceis de controlar.
3. O sarampo pode ser perigoso?
Sim.
A maioria das pessoas recupera, mas isso não significa que o sarampo seja uma doença inofensiva.
As complicações podem surgir mesmo em crianças previamente saudáveis - 1 ou mais complicações acontecem em aproximadamente 30% dos casos de sarampo!
Entre as mais importantes encontram-se:
Pneumonia: uma das principais complicações graves do sarampo e uma importante causa de mortalidade associada à doença.
Diarreia e desidratação: particularmente relevantes em crianças pequenas.
Encefalite: uma complicação rara, mas potencialmente muito grave, que pode provocar convulsões, alterações neurológicas permanentes ou morte.
Panencefalite esclerosante subaguda: uma complicação neurológica muito rara, mas fatal, que pode surgir vários anos depois da infeção inicial.
O sarampo também pode enfraquecer a memória imunológica
Existe ainda uma consequência menos conhecida desta infeção - o vírus do sarampo pode afetar células do sistema imunitário responsáveis pela memória de infeções anteriores.
Este fenómeno é conhecido como amnésia imunológica.
De uma forma simplificada, é como se o vírus “apagasse” parte da memória que o organismo tinha construído após o contacto com outros microrganismos.
Consequentemente, a pessoa pode ficar mais vulnerável a determinadas infeções durante um período prolongado após recuperar do sarampo.
Por isso, a vacinação contra o sarampo não protege apenas contra uma doença específica: também ajuda a evitar as consequências que esta infeção pode ter sobre o próprio sistema imunitário.
4. Como se trata o sarampo?
Não existe um medicamento antiviral específico, aprovado e utilizado por rotina, capaz de eliminar o vírus do sarampo.
O tratamento é essencialmente de suporte, procurando aliviar os sintomas, manter uma hidratação adequada e identificar precocemente possíveis complicações.
Dependendo da situação clínica, podem ser necessários medicamentos para controlar a febre e o desconforto, medidas de hidratação e, nos casos mais graves, internamento hospitalar.
Os antibióticos não tratam o sarampo, uma vez que se trata de uma infeção viral, mas podem, contudo, ser necessários se surgir uma complicação bacteriana.
A vitamina A pode ter indicação em determinadas situações, particularmente em crianças com sarampo grave ou em contextos específicos, de acordo com as recomendações clínicas. Não deve ser administrada em doses elevadas por iniciativa dos pais, porque o excesso de vitamina A pode ser tóxico.
O que fazer perante uma suspeita de sarampo?
Se uma criança (particularmente não vacinada) apresentar febre, tosse, conjuntivite e manchas na pele, havendo a possibilidade de ter tido contacto com um caso de sarampo ou viajado para uma região onde existe transmissão da doença, deve ser avaliada.
No entanto, existe um cuidado fundamental:
Não deve dirigir-se diretamente a uma sala de espera sem contactar previamente os serviços de saúde.
O sarampo é extremamente contagioso e uma pessoa infetada pode transmitir a doença a outras crianças e adultos presentes na mesma sala.
O contacto telefónico prévio permite organizar a avaliação em condições que reduzam o risco de transmissão.
Em Portugal, pode contactar o SNS 24, através do número 808 24 24 24, ou os serviços de saúde responsáveis pelo acompanhamento da criança.
5. Como podemos prevenir o sarampo?

A principal medida de prevenção é a vacinação.
Em Portugal, a vacina contra o sarampo está incluída no Programa Nacional de Vacinação (PNV). É administrada através da vacina combinada contra o sarampo, a parotidite epidémica (papeira) e a rubéola, conhecida pela sigla VASPR.
A vacinação permite desenvolver imunidade contra o vírus sem os riscos associados à infeção natural.
Quando é administrada a vacina em Portugal?
No esquema habitual do PNV português, estão previstas duas doses:
Primeira dose: aos 12 meses de idade.
Segunda dose: aos 5 anos de idade.
Em situações particulares, como viagens internacionais para países com circulação do vírus ou situações de surto, podem existir recomendações específicas de vacinação antecipada.
Por exemplo, bebés entre os 6 e os 11 meses podem ter indicação para receber uma dose antecipada em determinadas circunstâncias. Esta dose não substitui as duas doses previstas no esquema habitual.
A decisão deve ser tomada de acordo com as recomendações da DGS e a avaliação deve ser individual.
A vacina é eficaz?
Sim. Muito eficaz.
Segundo os Centers for Disease Control and Prevention (CDC), a eficácia estimada da vacina na prevenção do sarampo é de aproximadamente:
- 93% após uma dose;
- 97% após duas doses.
Isto significa que a vacinação reduz extraordinariamente o risco de contrair a doença, embora nenhuma vacina ofereça proteção absoluta.
Além disso, quando uma grande proporção da população está vacinada, o vírus encontra mais dificuldades em circular - é o princípio da chamada imunidade de grupo.
Porque é tão importante que quase todas as crianças estejam vacinadas?
Como o sarampo é extremamente contagioso, são necessárias coberturas vacinais muito elevadas para impedir a sua circulação sustentada.
A Organização Mundial da Saúde recomenda que se mantenham coberturas de, pelo menos, 95% com duas doses da vacina, em todas as comunidades.
Esta proteção coletiva é especialmente importante para quem não pode ser vacinado ou ainda não tem idade para completar a vacinação.
É o caso dos bebés pequenos e de algumas pessoas com imunossupressão.
Quando vacinamos uma criança, protegemos essa criança. Mas também contribuímos para proteger outras pessoas que não têm a mesma possibilidade de se defender.
6. O sarampo em Portugal: devemos estar preocupados?
Portugal tem uma história de sucesso na prevenção do sarampo.
A introdução da vacinação e a manutenção de elevadas coberturas vacinais permitiram reduzir drasticamente a circulação do vírus.
Em 2016, Portugal conseguiu interromper a transmissão endémica do sarampo, tendo a eliminação da doença sido reconhecida pela Organização Mundial da Saúde em 2017.
Mas é importante compreender o significado desta conquista - eliminar uma doença não significa que o vírus tenha desaparecido do planeta. Significa que deixou de existir transmissão endémica sustentada num determinado território.
Enquanto o sarampo continuar a circular noutros países, existe a possibilidade de serem importados casos para Portugal.
Portugal continua a ser um país seguro?
Sim. A situação epidemiológica portuguesa é bastante diferente da observada em países onde existem grandes surtos.
Uma das principais razões é a elevada adesão à vacinação - no entanto, não podemos considerar esta proteção garantida para sempre.
A existência de grupos de pessoas não vacinadas, mesmo num país com coberturas nacionais elevadas, pode permitir a ocorrência de cadeias de transmissão.
Basta que o vírus seja introduzido numa comunidade onde existam várias pessoas suscetíveis. É por isso que os profissionais de saúde insistem tanto na importância de manter a vacinação atualizada.
A vacinação é uma conquista da saúde pública que precisamos de continuar a proteger.
7. A vacinação é uma decisão individual, mas tem consequências coletivas
Este é, provavelmente, um dos aspetos mais importantes da discussão sobre o sarampo.
Quando uma família decide não vacinar uma criança, essa decisão não afeta apenas essa criança.
Pode também aumentar o risco de transmissão do vírus a outras pessoas.
Imaginemos um bebé de quatro meses.
Ainda não tem idade para receber a vacina contra o sarampo - se for exposto ao vírus, não pode contar com a proteção conferida pela vacinação.
O mesmo acontece com determinadas crianças que, por motivos médicos, não podem receber vacinas vivas atenuadas. Estas crianças dependem, em parte, da proteção proporcionada pela vacinação das pessoas que as rodeiam.
A imunidade de grupo funciona como uma barreira: quando uma grande proporção da população está protegida, o vírus encontra menos oportunidades para circular.
Mas, quando surgem falhas nessa barreira, as pessoas mais vulneráveis ficam expostas.
É por isso que a vacinação não é apenas uma questão de proteção individual, é também uma questão de responsabilidade coletiva.
E esta responsabilidade não deve ser confundida com a culpabilização dos pais que têm dúvidas, pelo contrário. Esclarecer dúvidas sobre a vacinação exige informação, confiança, diálogo e respeito.
8. Perguntas frequentes dos pais
O meu filho tem as vacinas em dia. Devo preocupar-me com os casos de sarampo em Portugal?
Se o seu filho tem a vacinação atualizada, de acordo com a idade, está a beneficiar da proteção recomendada.
Não existe, na situação epidemiológica portuguesa descrita pela DGS, indicação para antecipar sistematicamente a vacinação de todas as crianças.
Contudo, perante situações particulares, como viagens internacionais ou contacto com casos confirmados, podem ser necessárias medidas adicionais.
O meu bebé ainda não tem 12 meses. Como posso protegê-lo?
A principal medida é garantir que as pessoas que o rodeiam têm a vacinação atualizada.
É também importante avaliar antecipadamente os riscos associados a viagens para regiões onde existem surtos.
Em determinadas circunstâncias, pode ser recomendada uma dose da vacina VASPR a partir dos seis meses de idade.
Esta decisão deve ser discutida com o médico assistente e seguir as orientações das autoridades de saúde.
Uma criança vacinada pode ter sarampo?
Sim, embora seja pouco frequente - nenhuma vacina oferece proteção absoluta.
No entanto, duas doses da vacina proporcionam uma proteção muito elevada, estimada em cerca de 97%, e além disso, a doença tende a ser menos grave nas pessoas previamente vacinadas.
O meu filho não recebeu uma das doses da vacina. É necessário recomeçar a vacinação?
Não.
Quando existe atraso na administração de uma vacina, o esquema pode ser completado, não é necessário reiniciar todo o esquema vacinal.
Deve contactar a sua unidade de saúde para atualizar a vacinação.
O sarampo pode ser contraído por adultos?
Sim.
O sarampo não é uma doença exclusiva das crianças, qualquer pessoa sem imunidade pode contrair a infeção.
Em Portugal, as recomendações de vacinação dos adultos dependem da idade, do historial vacinal e de circunstâncias particulares, como a atividade profissional ou o risco de exposição.
A DGS recomenda, de forma geral, pelo menos uma dose de vacina contra o sarampo para adultos nascidos a partir de 1970 sem evidência de imunidade, enquanto os profissionais de saúde devem ter duas doses, independentemente do ano de nascimento, salvo situações específicas.
O que acontece se uma criança não vacinada tiver contacto com alguém com sarampo?
Deve ser contactada imediatamente a autoridade de saúde ou o serviço de saúde responsável.
Em determinadas situações, a vacinação realizada nas primeiras 72 horas após a exposição pode ajudar a prevenir a doença ou modificar a sua evolução.
Para algumas pessoas de maior risco, pode estar indicada a administração de imunoglobulina até seis dias após a exposição.
Estas medidas dependem da idade, do estado vacinal, das condições clínicas e do tipo de exposição e por isso, é fundamental não atrasar o contacto com os serviços de saúde.
9. O que podemos aprender com o regresso do sarampo?
O ressurgimento do sarampo deixa-nos várias lições importantes.
A primeira é que as doenças infeciosas não desaparecem simplesmente porque deixamos de falar delas.
A segunda é que a vacinação continua a ser uma das medidas de saúde pública mais eficazes de que dispomos.
A terceira é que a confiança na ciência e nas instituições de saúde precisa de ser continuamente construída.
E a quarta é que a prevenção exige um esforço continuado.
Quando muitas pessoas deixam de estar protegidas, criam-se condições para o regresso de doenças que tínhamos conseguido controlar.
Portugal encontra-se numa situação favorável, graças ao sucesso do Programa Nacional de Vacinação e à confiança que a maioria da população continua a depositar nas vacinas, mas essa conquista não é irreversível.
A história da vacinação ensina-nos que prevenir uma doença é muito mais fácil do que voltar a controlá-la depois de ela regressar.
E há uma ideia que gostaria que todos os pais guardassem deste artigo:
O sarampo não está a regressar porque as vacinas deixaram de funcionar. Está a regressar, em muitas comunidades, porque há pessoas sem a proteção que as vacinas poderiam proporcionar.
Proteger as nossas crianças passa por continuar a confiar na ciência, esclarecer dúvidas e garantir que nenhuma criança fica desprotegida por falta de informação correta.
Porque há doenças que não precisamos de voltar a conhecer para nos lembrarmos da importância de as prevenir.





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