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Vírus Sincicial Respiratório – os factos a saber


Com as notícias de internamentos e doença grave causados por infeção a vírus sincicial respiratório (VSR) a surgir todos os dias e a deixar os pais muito inseguros, torna-se importante fornecer a melhor informação possível. Numa época em que os vírus respiratórios atingem o seu pico e em que o recurso às urgências pediátricas esgota qualquer capacidade de resposta, torna-se ainda mais necessário que todos os cuidadores de bebés pequenos estejam a par dos vários quadros de sintomas causados pelo VSR, e de quando procurar ajuda.

 

Ao longo deste artigo vou procurar explicar-vos quão frequente é a infeção por este vírus, como se transmite, as doenças que pode causar, como se diagnostica, o que podemos fazer para proteger os nossos filhos, e finalmente os sinais de alarme que devem fazer procurar o cuidado médico. Vamos a isso?

 

O que é o VSR e quem pode ser infetado?


O VSR é um vírus que causa infeção do aparelho respiratório. Pode atingir pessoas de qualquer idade, mas as crianças são quem mais sintomas graves apresenta, particularmente abaixo dos 2 anos de idade, e especialmente no caso de uma primeira infeção a este vírus. Virtualmente todas as crianças já tiveram uma primeira infeção a VSR até aos 3 anos, e serão reinfectadas várias vezes ao longo de toda a vida.

 


Como se transmite este vírus?


Por ser um vírus respiratório, a sua via mais habitual de transmissão é através de gotículas respiratórias contaminadas, quando as crianças respiram, espirram, falam ou tossem. As gotículas podem ficar alojadas nas mãos, e permanecer ativas durante várias horas, o que faz com que a transmissão seja muito fácil de criança para criança, ou de adulto para criança. Este vírus tem o seu período de maior circulação nos meses de outono e inverno (outubro a março).

 

Que doenças pode causar o VSR?


O VSR é mais conhecido por ser o principal agente da bronquiolite, uma infeção das vias respiratórias mais pequenas, chamadas bronquíolos ( ver o artigo do blog – Como perceber que estamos perante uma bronquiolite: guia para pais em https://www.alexandraluzpediatra.com/post/como-perceber-que-estamos-perante-uma-bronquiolite-guia-para-pais).

Outra doença potencialmente mais grave causada pelo VSR é a pneumonia, situação em que a infeção atinge o próprio tecido pulmonar, e que do ponto de vista de manifestações geralmente associa febre e tosse. Não há nenhum sintoma específico que nos diga claramente estarmos na presença de uma pneumonia, e as manifestações podem variar muito com a idade da criança.

Em crianças mais velhas e adultas, a doença causada pelo VSR geralmente é semelhante a uma constipação mais “chata”, embora se possa manifestar como uma traqueobronquite ou uma crise de asma.  

Uma informação muito importante a reter acerca do VSR é que a infeção tende a ser mais grave em crianças mais pequenas (abaixo dos 2 anos), sob a forma de bronquiolite ou pneumonia.

 

Como se diagnostica a infeção a VSR?

Para diagnosticarmos uma infeção como sendo por VSR, temos de identificar a presença deste agente, o que geralmente se faz por análise das secreções respiratórias. Isto não é feito por rotina porque não existe nenhum benefício em diagnosticar crianças que têm doença ligeira, uma vez que não afeta o tratamento que se faz nestas situações, que é apenas de suporte – não há tratamento específico para o VSR, e seja VSR ou outro vírus respiratório, faz-se a mesma coisa para tratar. Apenas se faz a análise de secreções quando esta é importante para determinar alguma ação, como por exemplo no caso de internamentos no hospital, em que é necessário separar as crianças por vírus a causar os sintomas.

 

O que podemos fazer para proteger os nossos filhos da infeção a VSR?


Em termos de prevenção, podemos fazer a diferença entre as medidas gerais, e as específicas contra o VSR.

Como medidas gerais temos:

- Higienização frequente das mãos

- Limpeza de superfícies que possam funcionar como contaminantes

- Manter o aleitamento materno pelo período possível (passagem de anticorpos protetores)

- Evitar a exposição (proteger as crianças do contacto com outras crianças com sintomas respiratórios sugestivos de VSR)

 

No caso de medidas específicas, atualmente contamos com 2 formas de proteção:

- Vacinação das grávidas para proteção dos pequenos lactentes:

No nosso mercado desde 2023, a vacina Abrysvo(R) tem indicação para ser administrada às grávidas numa única dose entre as 24 e as 36 semanas de gravidez. A sua segurança e eficvácia são suportadas pelo estudo MATISSE, e funciona com o mesmo racional que é usado para a vacina da tosse convulsa, já administrada no Programa Nacional de Vacinação às grávidas – quando vacinamos nesta altura da gravidez, damos tempo à grávida para produzir anticorpos que irão atravessar a placenta e chegar ao bebé, protegendo-o na altura em que ele é mais susceptível à infeção grave (para já, com maior benefício até aos 6 meses). De ressalvar que não deve ser administrada na mesma data da vacina da tosse convulsa.

 

- Administração de anticorpos monoclonais:

1) Palivizumab – durante muitos anos este anticorpo foi o único disponível no mercado global para a prevenção da infeção grave a VSR, e apenas é administrado a lactentes de risco, com indicação para tal, pelo seu risco mais elevado de complicações por este vírus. A sua administração é efetuada durante os 5 meses considerados como a época do VSR, através de uma injeção intramuscular mensal. Em Portugal mantém-se o único anticorpo monoclonal disponível.

 

2) Nirsevimab – a sua comercialização foi aprovada nos Estados Unidos em 2023, para todos os lactentes, e tem o benefício de com uma única dose no início da época do VSR permitir proteger por um período de cinco meses. Nos EUA, a indicação da Academia Americana de Pediatria e do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) é já a de administrar uma única dose a todos os lactentes com menos de 8 meses no início da época do VSR, cujas mães não tenham sido vacinadas contra este vírus. Na europa, o Niservimab foi aprovado pela Agência Europeia do Medicamento em setembro de 2022.

Mais recentemente a região autónoma da Madeira iniciou a administração deste anticorpo para prevenção da infeção a VSR, para a época 2023-2024, a todos os lactentes nascidos e que apresentem menos de 8 meses até ao final da época de circulação do VSR – se possível ainda dentro da maternidade para os nascidos entre 1 de novembro e 31 de março de 2024, e o mais próximo possível do início da época para os restantes. Para já, é o único sítio em Portugal onde está a ser feita esta imunoprofilaxia a todos os lactentes, com ou sem fatores de risco para infeção grave.        

 

Como saber se o meu filho tem uma doença a VSR que precise de cuidados médicos?


Ao longo deste artigo, vocês ficaram a saber que o VSR pode ter manifestações tão ligeiras como uma simples constipação, ou quadros potencialmente graves como a bronquiolite e a pneumonia. É seguro dizer que a maioria das crianças, particularmente as mais velhas, terão quadros que claramente apenas requerem vigilância em casa, e o tratamento de suporte habitual nestas situações (administrar antipiréticos quando necessário, reforçar a hidratação, desobstruir o nariz...). Mas à medida que falamos de crianças mais novas, particularmente das com menos de 12 meses de idade, ainda mantendo que a maioria delas apenas necessitarão de cuidados em casa, a probabilidade de doença mais grave aumenta, e temos de estar muito atentos a manifestações que sugerem necessidade de avaliação médica (ver o artigo da bronquiolite já referido acima):

- Febre persistente;

- Dificuldade respiratória;

- Recusa alimentar ou dificuldade alimentar importante;

- Prostração/irritabilidade mantida;

- Tosse persistente incessante;

- Cor azulada nos lábios;

- Pausas respiratórias prolongadas;

 

Este artigo visa fornecer informações baseadas nas evidências mais atuais para ajudá-lo a entender e prevenir o VSR. Como sempre, em caso de dúvidas ou preocupações, a melhor pessoa a contactar será o seu médico assistente, que é quem conhece melhor o seu bebé ou criança.

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